E UM ANJO TORTO, NADA MORTO, TIROU UM SARRO: VAI, 1 BERTO, LEMBRAR O TEU BAIRRO!
Quando eu nasci um anjo torto desses que andam por aí ensaiando novos voos deve – com certeza disse - ter dito para este escriba: “vai, 1 Berto, vai viver por aí morrendo saudades do teu Jaguaribe pela Foi profético como devem ser todos os anjos. Sabia esse sujeito alado que o meu bairro Jaguaribe não demoraria muito em virar apenas uma fotografia desbotada na parede da minha memória. Embora não fosse mau esse anjo que me acompanha, nunca o foi, mas leal, amigo e companheiro, me fez um mal danado.
vida!”.
Anos depois, vinte ou vinte anos mais cinco ou dez, ou menos do que isso, passo hoje pelo meu bairro e descubro que pouco conheço/reconheço desse bairro que foi um dia já foi meu. É triste. Tristíssimo. Difícil não sendo de Jaguaribe imaginar o tamanho dessa tristeza. Dapenha, somente para lembrar, o meu irmão querido, meio profético, metade desse anjo do qual falei aí em cima, costuma dizer que um dia esse bairro, o meu, ainda reconhecerá o amor deste filho seu (rimou e ficou bonito, não?).
Sigo com os olhos interrogativos em forma de anzol e pesco o que restou dessa doída lembrança. A Escola Técnica, velha Industrial, o meu sonho de consumo estudantil. O Campo da Vila, antigo ABC, onde ensaiei os primeiros chutes a gol e, mesmo sem lembrar o mais bonito, pois, foram tantos e incontáveis, são todos belos para mim, ainda balançam a rede da saudade. Fiz muitos. Se não fiz 1000, como hoje estamos na moda do “mil meu, com mil teu” – saudades! - os poucos que fiz valeram por milhões!
E como esquecer das antológicas peladas entre as equipes do Cu de Calango – o dicionário insiste que eu troque o cu por ânus, não troco. Ah, e esse campo, podem anotar, nunca troquei nada (risos) - e Senado, comecinho de tarde, no campo do ABC?
Em menino ainda, pernas finas e braços nus, nada no bolso nem nas mãos, fazia parte da primeira turma, aquela chamada de “esfria sol”. Mas, só um pouco mais crescidinho, Toinho, o irmão craque de Tiquinha, esse, o dono do time, insistiu com o dono, Tiquinha, o seu irmão, e, logo, logo, estrearia no “time de cima”. Uma realização!
Outro dia encontrei o Toinho, vencido no campo da vida, e, olhos distantes, orgulhosamente, confessou na mesa de bar: “Quem lançou Beto (não me chamou de 1 berto) no “time de cima” do Guarani (era o seu nome), fui eu (sic)! “. Não foi preciso, mais uma vez, agradecer. Sempre fui agradecido por essas e outras coisas grandes da minha pequena infância.
Como esquecer das peladas apostadas entre Gilberto Capado e Marcos Mãozinha? Eram os nossos Fla e Flu! Clássicos! Pois bem. Nasci ali, na Vila dos Motoristas, um “motoristas” que engoliu o nome próprio daquela praça e que ninguém nunca reclamou. Ah, sem modéstia à parte, meus senhores, eu sou da vila!
No sábado passei pela casa que era minha. Desculpem. Pela casa que sempre foi minha. Lembro que dia desses, passei por ela, por essa casa que sempre foi minha e, sem que eu fosse avisado, vi que o morador que se arvorara a ser dono dela, a colocara à venda. Sacrilégio! Ó Ledo Ivo engano dele! A casa onde eu nasci e de lá saí direito da barriga de Dona Chiquinha para o mundo, vasto mundo, chamando-me 1 Berto, uma rima que os ouvidos não conseguem captar, não tem preço!
Mas como também esquecer a rua? Já foi chamada, se a memória não me prega mais uma das suas de Maria Eulina. No dia da saída da barriga dela, cujo nome vocês sabem e não preciso mais dizer, já era – dona Chiquinha, não, ela sempre foi, a rua – batizada (ou rebatizada, vejam aí) de 12 de Outubro. Nasci na casa de número 950. Foi ali mesmo, em casa, à moda antiga, Macunaíma nada preguiçoso, consumidor de arte e bom caráter – desculpem a falta de modéstia – que a barriga de Dona Chiquinha me deu à luz para iluminar, como ainda hoje, continua iluminando, graças a Deus e, claro, a ela, esta vida onde somente tenho para agradecer. A casa, lembro, era uma frente somente jardim e um quintal semente e pomar. Foi ali – são tantos os Ali, mas nenhum Muhammad – também que aprendi, passo a passo, os primeiros passos com o Compadre Heráclito.
A Mata do Buraquinho era a minha Amazônia. Parece não ter fim. Começava ali, por trás do Sitio de Dona Zaíra, e, como imaginava ser o arco-íris, não tinha mais fim. Era como a Felicidade do Lupicínio Rodrigues. O seu fim ficava pra lá do fim do mundo.
Um dia ouvi o meu amigo Livardo Alves chamá-la de “minha casa”. Não senti um só pouquinho de inveja - tinha o meu Campo da Vila. E, se não bastasse, toda a Escola Industrial, onde, comecinho da tarde, olhava pelo buraco do muro que a o lance das meninas, lindas, todas vestidas de azul.
Mas a Mata do Buraquinho, como sempre fora assim minha conhecida, nada de Mata Atlântica ou nome outro que lhe dessem, era uma mata de um só dono só. E esse dono, no fundo, bem no fundo (da mata, não, dele), ele sabia. Pertencia mesmo a um negro alto e elegante, voz de tenor, conhecido por João Dantas. Anos depois, o entrevistaria, entre risos e belas recordações, na minha sala de trabalho.
Mas, se Mata do Buraquinho não foi casa minha, foi o meu desconhecido, a minha caverna escura e fria, onde, sem fio o de Ariadne para me guiar na volta, temia encontrar o Minotauro. Se não era a minha floresta encantada, só pelo desconhecido, encantava-me com ela todo o dia.
Ufa! Como esquecer as jacas ainda “de vez” que Tota, o meu irmão-herói que foi morar n’outra cidade, tirava e enterrava em local que somente ele conhecia?! E quem, mesmo sabendo o local onde o seu “tesouro” estava enterrado, sabendo a quem era Tota, mexeria no tesouro seu?
Mesmo que não interesse aos meus dois leitores, um dia ainda dedicarei muitas mal-traçadas a Tota, o meu herói. Afinal, Tota era – e continua sendo - Jaguaribe e Jaguaribe, lembrando o resto da família, continua sendo todos nós.
Pausa.Se o Tejo do Fernando Pessoa deságua no mar, o meu Jaguaribe, onde as onças, belas onças matavam a sede, deságua dentro do meu peito jaguaribense. E por isso, sempre que lembro dele, sou todo água.
