Um ano sem ele: Lauro agora é de uma vez por todas de todos os SANTOS!

Faz exatamente um ano que Lauro dos Santos Almeida trocou de roupa e foi morar noutra cidade. Lauro é o meu irmão. O nosso. De João Heráclito, Leonardo, Tota, Maria, Dapenha, Lourdes e Paulo. Todos Almeida. Todos irmãos do Professor Lauro. Isso mesmo: professor Lauro. Era assim chamado e gostava de ser chamado assim.LAURO-NO-BARCO

Não é difícil falar de um irmão, sobretudo se esse “falar” for tão somente de bem. Afinal, o que ele teria de mal para este seu aluno falar? Não vou mentir: nada. E se respondo assim é porque sei que ele não gostaria que eu mentisse na sua ausência. Poderia dizer “apenas “que Lauro passou por aqui e fim de papo. E nesse “passou por aqui” estaria contida toda a nossa saudade. Trocando em miúdos: Lauro passou e deixou esse enorme vazio dentro do peito dos Almeida.

 Só peço que não me perguntem o que Lauro tinha de melhor no tempo em que morava por aqui.  Pois, assim como outros irmãos meus, não saberia dizer o “melhor” dele.  Se tinha defeito? Mais que isso: Lauro tinha defeitos.  No plural. Defeitos que todos nós temos. Um defeito não, muitos.  Fosse assim, um defeito apenas, o mundo não seria essa porcaria como muitas vezes assim o vemos.

 O melhor que Lauro nos deixou foram os exemplos, costumo dizer.  Um cidadão que mesmo sabendo que sozinho não mudaria o mundo,  fez a sua parte, e mudou para melhor o mundo que os seus olhos viam.  Evoluir, costumava pedir, para não perder o trem da história. Viver em sintonia com o seulauro no rio facebook tempo, esforçar-se.  Estudar para aprender, e ensinar o que aprendeu.  Naquela linha da professora Margarida do Roberto Athayde.

O seu bom-humor – marca sua registrada – foi embora quando um traiçoeiro AVC lhe pegou numa das curvas da vida.  As três temíveis letrinhas. Fosse uma só, nenhuma dúvida, Lauro sorriria dela.  Mais ainda: aproveitaria a enxerida, fosse qualquer uma delas, para fazer mais uma piada. Porém, infelizmente, não foi apenas uma, chegaram em quadrilha. Tudo premeditado.  Ainda tentou, senti. Afinal, Lauro nunca foi de desistir.  Agora que essas três letrinhas são traiçoeiras e sacanas, nenhuma dúvida eu tenho.

Depois desse dia, sou testemunha ocular e presente nesse difícil momento, assim como outros Almeida, Lauro começou a entristecer. Era a primeira vez que o víamos –  ouvíamos  também o seu silêncio – assim.  E solidários, sempre, ficamos tristes também. As suas “bolas de aço” – era assim que ele chamava as doses generosas de cachaça (nunca foi um viciado) que lhe desciam queimando a garganta – pararam na marca do pênalti, se desmancharam no ar, mesmo não sendo sólidas.

 As piadas costumeiras que gostava de repetir como se fossem suas –  eram, eram – iam se perdendo nos intervalos das gargalhadas que eram poucas e espalhadas com intervalos que antes não conhecíamos. Mas sorríamos mesmo assim. Lauro era sinônimo de alegria. Ninguém o tinha como aquele homem sério que em vez de continuar olhando às estrelas,  parou para contá-la, deixando tudo de lado, preferindo ver a Banda passar.

 A” Baratinha” (“a baratinha pediu ao seu pai/você me deixa ir à Festa das Neves? /Não vai, não vai!”)  e a “Flauta de seu Ubaldo” (“seu Ubaldo tinha uma Flauta/A Flauta de seu Ubaldo…” /) foram as únicas composições que fizera enquanto morava por aqui.  Ninguém as interpretava melhor do que ele!  E não adianta: são composições de Lauro dos Santos Almeida!  Famosas no meio – e por todos os lados – da família Almeida, essa ela sabe de cor e salteada, verso por verso, que são poucos e inesquecíveis.

 O poema Renata – (Quando foi rica e feliz, /Renata teve o que quis:/Beijo, carinho, esplendor! /Hoje arrasada e perdida, /Pelos banquetes da vida/Busca migalhas de amor!) –  era dele! É o é (sic)! O bom Jansen Filho que me desculpe, mas não o imagino feito por outro. Foi o único por ele decorado.  Ainda tentou “fazer” outrosM mas nem precisava. Lauro era um poema em pessoa, corpo e alma.

E agora, 1berto, eu vou falar com quem?

lauro notebook

Disse-me inúmeras vezes, ainda quando morava por aqui. A doença (a terrível depressão) estava  com a fome de anteontem. O vazio lhe deixou cheio o peito. Sentia a falta dos “alunos” que chegavam a ele sedentos de novas histórias que somente ele sabia contar e “inventar”.

Lauro era tão criativo que ensinou a tocar violão sem uma nota saber. As cordas? Essas para nada serviam. Foram ciadas  apenas para enfeitar esse corpo sonoro de mulher. Ensinou a cantar, sem saber afinar uma única nota em sua vida única por aqui. Também não precisava. A sua afinação era feita pelos corações que amavam esse Lauro irmão e amigo.  Ouvíamos a sua “Baratinha” como se estivesse sendo cantada pelo Emílio Santiago ou Ney Matogrosso.

Vai Lauro! Se por aqui eras mais nosso do que deles, agora, definitivamente, és de todos os Santos! Lauro dos Santos! Lauro (nosso e dos…) Santos Almeida!

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