Autoajuda

 

 

A autoajuda matou a literatura no Brasil e a culpa é das editoras

A autoajuda matou a literatura no Brasil e a culpa é das editoras

O Twitter é a rede social mais tóxica que existe. Antigamente era um lugar legal onde as pessoas publicavam aforismos e haikais. Hoje é só cancelamento e agressão. Comentei outro dia no Twitter reportagem do “Estadão” sobre a lista de livros mais vendidos no Brasil. É só autoajuda de cima abaixo. Escrevi: “O país de Machado de Assis virou um deserto de homens e ideias. E a culpa é das editoras”.

Foi o que bastou para quatro dias de ofensas e discussões. Alguns argumentaram que a culpa não é das editoras, mas sim da sociedade, o que me lembrou um antigo esquete do Monty Python. Policiais invadem uma casa em busca de um assassino e o cara confessa: “Fui eu que matei, mas a culpa é da sociedade!”. E o policial responde: “Muito bem, prendam a sociedade!”. Todos os personagens são presos, menos o criminoso.

Culpar a sociedade é sinônimo para “o problema não é meu”. Editoras precisam fazer dinheiro, eu entendo. Mas o livro de autoajuda não forma leitores. O cara que leva pra casa o fabuloso “Fique bilionário apenas com o poder da mente” não vai comprar nenhum livro depois desse. Se funcionar, ele pode sair por aí ostentando fortuna e ignorância. Se não funcionar, ele vai achar que livro não serve para nada além de calço pra mesa bamba.

O que forma leitores é literatura. E uma editora deveria se preocupar com isso além de apenas fechar o caixa. Naturalmente, não adianta apenas publicar o jovem ficcionista talentoso no meio de um monte de tranqueiras e deixar por isso mesmo. Livro é um produto como qualquer outro e precisa de marketing e exposição para vender.

Ninguém vai bater na porta do editor e dizer: “Bom dia, senhor editor, acabo de criar o novo Harry Potter que vai deixar o senhor bilionário da noite pro dia, topa publicar?”

Para surgir um novo Harry Potter é preciso publicar ficção regularmente e formar público leitor. Assim as chances de um sucesso aumentam. Antes de J. K. Rowling, o Reino Unido já tinha Neil Gaiman, Terry Pratchett, Douglas Adams, Alan Moore, só pra citar alguns escritores da mesma vertente. Agora, se você não publica (e não marqueteia) porque é mais fácil ganhar dinheiro com o fabuloso “Fique bilionário apenas com o poder da mente”, nunca haverá um Harry Potter. Simples assim.

Há muito tempo, quando eu era um jovem idealista, assisti a uma palestra de um editor da extinta Abril Jovem no Curso Abril de Jornalismo. Perguntei a ele porque a editora não investia em produção nacional e preferia publicar o Homem-Aranha. Ele respondeu: “Por que nada me garante que o Zé-das-Couves-Man vai vender mais que o Homem-Aranha, que eu sei que vende!”.

Eu poderia ter respondido com algum aforismo genial, mas eu era jovem e tonto. E, pior ainda, eu precisava desesperadamente daquele emprego. Mas o fato é que, quando criou o Homem-Aranha, Stan Lee também não tinha garantia alguma. Em várias entrevistas ele contou que as pessoas diziam “não vai dar certo, todo mundo tem medo de aranha…”

Hoje o Marvel Studios é o setor cinematográfico mais lucrativo da Disney.

Autoajuda faz caixa, mas não faz futuro. E as editoras deveriam pensar nisso se pretendem continuar a ganhar dinheiro vendendo livros.

 
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