1976 – O Relatório da Saudade!

1976 – O Relatório da Saudade!

O velho Relatório “dorme” sobre a mesa de trabalho. A minha.  Os gráficos, apesar de interessantes, não me atraem o olhar. Esse passeiam por jovens rostos e hoje velhos. Sem memória. Todos.

As fotografias amareladas não passam em branco. Sonhadores. Os fotografados. A juventude tem dessas coisas. Sonhar. Sonhar. Sonhar. Viver!  Uns envelhecem assim. Sonhando. E, por isso mesmo, nunca envelhecem.

No velho Relatório são muitos os jovens.  Velhos. Velhos que nunca foram jovens. Tempos em que o amanhã nunca nos preocupava. Hoje. Vivíamos o hoje. Apenas. O melhor lugar do momento era verdadeiramente aqui e agora. Como muitos assim ainda vivem. Acham.

As fotos. Essas estão próximas. Os fotografados distantes. As páginas passam e o passado se abre para o presente. O futuro? É agora. E aqui.

Mirtes numa velha máquina que nem mesmo o nome hoje eu sei. Lembro-me.  Datilografia. Acho que é por ai. As páginas do velho Relatório continuam se abrindo para o presente.

Ernani. Bom peladeiro que embriagado com a vida e de vodka, como um dia me falou, quase perdia a cabeça. Desequilibrou-se numa das ruas de sua casa e cabeceou a forra da porta da cozinha.

 A velha que um dia disse que “mandava e desmandava” no mundo que dela. Achava. O mundo descrito no Relatório é como se dela nunca fosse. Nem parte. E não era.  Nem parte ela fazia.

Velhas máquinas. VHF, SSB e telefones que se vistos fossem pelo Gran Bell ele diria lhe pertencer. Uns ainda morando por aqui. Vestindo a mesma roupa que eu visto. Outros, uma minoria, aliviando assim a minha busca por esse tempo perdido, ainda morando por aqui.

Ah, o que estariam fazendo? Pouco importa. Agarram-se ao passado. Todos. Eles sentem medo tivesse do presente. O futuro? Nem pensar.  Tem mais passado que presente. Eles. E menos futuro ainda.

Gualberto, Silvestre, Franklin, Iranildo, Lourdes, Zeneide, Mércia… Isauro, Carlos Antão e Antonio… Moacir, Josemir, Robson e Socorro… Socorro! São muitos os que se mudaram! Uma mudança que não desejariam – por medo ou insegurança – por medo do que por lá encontrarão. Apressados. Uns, porém, vagarosamente como o cair de uma manhã de verão.

Fecho o velho relatório. O passado fica onde nunca deixará de estar. O presente? Esse nos diz tudo sobre o futuro.  Os que passaram não passem disso: uma boa lembrança. Mas, infelizmente, uma boa lembrança que dói.

Compartilhar...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*


8 + = doze

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>