A jangada voadora de Geraldo Vandré

A jangada voadora de Geraldo Vandré

Sou o tipo de leitor que em tudo mete os olhos e deixa  no fundo deles o que melhor lhe convém. Aos olhos não, ao dono deles. Nesse momento, o carro arranhado na oficina, resultado de uma arranhada provocada por um carro de um sujeito que nada sofreu, uma vez que do seu anonimato não saiu, tenho em mãos uma velha revista onde o eterno insatisfeito Geraldo Vandré solta os seus cachorros –  vacinados e não -contra tudo e todos que o rodeiam. Respeito a sua insatisfação. Não respeito, porém, algumas vezes, as minhas.

Para início de conversa ou de entrevista, como queiram, por incrível que possa parecer a velha revista não traz o nome do entrevistador. Na sua apresentação, Vandré é descrito como um sujeito que morrendo de medo de ser torturado, fugiu para o Chile, França, Argélia, Alemanha, Áustria, Grécia e Bulgária. Pensem num sujeito viajado! Num sujeito indo e voltando! Esqueceu, porém, de ressaltar que por isso mesmo, apesar dos muitos em contrário, o filho do doutor José Vandregísilo e de dona Maria Eugênia nunca foi torturado.

Enquanto o carro era desarranhado eu lia, sorriso nos lábios, mais uma história desse sujeito que assim como Edson Arantes do Nascimento criou o Pelé, ele, o Geraldo Pedrosa de Araújo Dias , criou um Vandré mais inteligente, porém perna-de-pau no futebol. A entrevista, confesso agora para começo de sorriso, foi concedida no Clube de Aeronáutica, no Rio de Janeiro.

Mas o sorriso descrito nas mal-traçadas, para que um mais atilado não veja nele outro sentido, saiu ao imaginar a surpresa do entrevistado ao encontrar essa referência na “composição de protesto”, bem acomodada no Terceiro Comando da Aeronáutica e diante de alguns exemplares de revistas de aviação e da Ana Maria. E se eu disser que Vandré, somente orgulho, ostentava um brilhante distintivo da Aeronáutica no peito, um dos meus dois leitores acreditará? Pois acredite, ostentava sim.

A leitura é gostosa. Vou em frente. Enquanto isso,  pouco a pouco,  o carro vai sendo desarranhado.  E rápido, Mas, Vandré vai sendo apresentado como se estivesse ali, ao lado do mecânico desarranhador, bem longe daquele ar pesado que carrega no rosto desde os tempos mais distantes. “Vim para comemoração da Semana da Asa”, disse na entrevista. Um voador? Perguntariam os que não conhecem o compositor de Fabiana, essa sua declaração explícita de amor ao “pelotão de asas”.

 Para a minha surpresa o entrevistador sem nome e sem nenhuma surpresa da parte dele, consegue flagrar um momento raro na vida do senhor insatisfação – uma risada!  Nunca consegui imaginar um sorriso cortando aquele rosto pétreo. Uma gargalhada? Impossível.

A leitura e o serviço no carro desarranhado estão chegando ao fim. Na entrevista, vi agora, a  contracapa do seu disco Hora de Lutar é lembrada. O que estaria querendo dizer com o “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”?  Uma citação do Camões?

 Depois de perguntar se o entrevistador ganharia dinheiro com as suas declarações, o dono do jornal, em especial, sucintamente, o autor da bela “Pequeno Concerto que virou canção”, revela o porquê da citação: “Mudamos, eu e o Brasil. O passado e o futuro”. É o que eu digo: a jangada aprende a voar”.

A citação final não é coisa de Camões. Está mais para o Dorival Caimmy:  “A jangada aprende a voar”. ? Não espero que ela, a jangada de Vandré, aprenda a voar. Pego o meu carro, encerro a leitura e… Voo!

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