A língua mãe e o filho da mãe que não fala a sua língua

A língua mãe e o filho da mãe que não fala a sua língua

A sua – dele – cidade fica distante. Muito.   Quem me diz é o Google.  Ele – o Google – sabe de tudo. É o freud dos nossos tempos. A cidade dele fica a 477 quilômetros de distância da capital. Veio parar por aqui ainda menino. Disse-me um dia.  A sua cidade, porém, é a mais bonita do mundo. Até mesmo que a Rimini do Fellini. A comparação não é dele. É minha. E se a comparação não fez, foi pelo fato de não conhecer um nem o outro.lingua

Sendo o   tipo de falar somente com pessoas conhecidas, próximas, é visto por muitos como uma “pessoa fechada”. Não chata, isso todos sabem que não é. Até brincalhão às vezes.  Tem o costume de contar piadas típicas de sua gente. Um sertanejo convicto e orgulho de um sertanejo ser. Nunca, porém, um matuto. Não gosta da palavra.  Estudou, formou-se e, convidado, foi ensinar na universidade de onde acabara de sair. Mesmo assim, com toda essa ótima formação, morando e vivendo na cidade, não perdeu suas características sertanejas.

Um dia me disse que desconfiava de toda mulher que fuma na rua. Não estranhem, ele é assim mesmo. Alguns atos e atitudes são próprias de homem, costuma dizer.  Tanto que continua achando que algumas profissões são próprias do seu sexo. Nada de mulher, por exemplo, na polícia ou exercendo profissões que são “por natureza” – diz assim mesmo – de homem.  Também está sempre olhando de viés, por exemplo, o sujeito que usa expressões como “amei de paixão”, e se despede com um “beijo no coração”. Não é “coisa de macho”, diz.

Outro dia confessou que em sua casa, a língua falada por sua mãe era somente entendida pelas irmãs e poucos privilegiados. Uma língua estranha, cheia de murmúrios e gutural.   Mesmo que não entenda a menor frase nem conheça uma só palavra escrita dessa língua, desconfia, não raras vezes, que elas a usam (a língua) para esconder segredos. Se ela, a língua inventada por sua mãe, se parece com alguma outra que ele conheça?  Não, ela é única em tudo. Uma língua mátria e sem pátria.

Forço a barra. A curiosidade me queima os ouvidos. E o som? O som?  Insisto. Peço-lhe que me diga algumas palavras nessa língua.  Impossível, responde. Somente a mãe e as irmãs são capazes de articular as palavras dessa língua. Não sabe, embora tenha ouvido conversas nessa língua, muitas, dizer ou imitar o seu som. Uma língua inventada no sertão da Parahyba?  Somente falada em família, entre mãe e filhas?   Não lhe digo que fica difícil de acreditar, pois, se assim eu fizesse, ele “se fecharia” em si e nenhuma outra nota falaria.  Mas que achava estranho, isso ele percebeu no meu silêncio.

Agora tento avivar-lhe a língua “inventada” por sua mãe, dizendo-lhe que no mundo, segundo os filólogos e outros estudiosos, até agora, sem contar a com a língua inventada por ela, existem 6.912 idiomas. Silêncio. Mais de 6.000 línguas? O silêncio assim foi quebrado. Uma pergunta. Apenas. Mas não adianta. Não acredita. Assim como também nunca acreditou “nessa coisa” camada carbono 14, capaz de saber até mesmo idade da unha de Matusalém.

Mas nada disso lhe desperta a curiosidade. A língua inventada pela sua – dele – mãe é mais importante que todas as outras deste mundo de meu Deus. Uma língua, uma pátria, a dele. A pátria de sua mãe.

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