A menina Maria que sonha um dia morar no céu…

A menina Maria que sonha um dia morar no céu…

Maria José tem 14 anos. Todos os dias, ainda manhãzinha, bem cedo, seguindo para o trabalho encontro-me com ela. Maria aparece de repente,mais que repente,  como se tivesse saído do “nada”.

Maria diz  que tem 14 anos. Foi a idade que  disse ter. Maria é magrinha e tem cara de ratinho brincalhão. Parece ter bem menos. dez ou doze. Ela fala comigo como se eu tivesse a mesma idade dela. Ou menos.

A vida é isso, ela me diz. Não sei bem o que ela quis dizer com “isso” ao se referir sobre a vida.  Penso. E o que tu sabes da vida para dizer que a “vida é isso”, Maria ? Ora, responde como se eu não lhe  tivesse perguntado, e é preciso saber muito da vida pra considerar a vida assim? Respondeu com aquele jeito de menina que somente as meninas tem.

Olho Maria nos olhos. Ela, porém, não olha para mim. Está distante. Longe. Talvez nos pais que não conheceu. Sabes os nomes deles? Eu?… Assim mesmo, responde com esse  “eu” interrogativo  e reticente. Nenhuma importância. Foi o que deixou no rastro do olhar espalhado nesse momento pelo sino da Igreja do Rosário, essa  referência religiosa do Bairro de Jaguaribe.

Maria tem 14 anos de vida. É isso? Ela sorri. Catorze anos de vida? Ah, isso é lá vida! Sorri. O sorriso é o tipo que se pode qualificar como o mais sem graça nesta vida. Sobretudo na vida dela. Na vida de Maria.

Diz que gostaria de morar lá em cima. No sino da igreja?! Pergunto. Não! O “não” dessa vez parece ter sido expulso da língua num daqueles chutes fortes de quem está batendo uma falta em direção ao gol a cinquenta metros distância. No sino, não! No céu!  Errei feio.

Maria José não fitava o sino da igreja. O azul de um céu que amanheceu só pedra de anil. Era esse o alvo do seu olhar. No céu. Maria José deseja ali morar. Um dia ainda ela vai morar. Digo-lhe. Um dia?! Bah! Tinha pressa! Dependesse dela e apenas dela,  há muito que  no céu estaria morando. Sairia da barriga da mãe para o céu!  E se não fosse pedir muito, nem da barriga precisaria sair.

Digo a Maria que existe um lugar no céu reservado pra ela. Silêncio de Maria. Outro silêncio meu. E se não tiver dinheiro para pagar a hospedagem e acabar na rua como aconteceu com uma tia com quem morava os primeiros anos de vida?

Digo para Maria que o pagamento dessa hospedagem não é feita com dinheiro. Ele me olha desconfiada. Dinheiro no céu não tem o menor valor. A desconfiança no olhar de Maria agora se tonra  mais visível. Não existe dinheiro no céu?! Não. A bondade, o carinho, o amor, a caridade, tudo praticado aqui na terra,  é um “investimento” na caderneta de poupança no céu.

Maria sorri com a ideia de uma “caderneta de poupança” que vai rendendo – nada de juros!– mais amor a cada boa ação praticada nessa sua rápida passagem por esse mundo que diz não achar a menor graça. 

Voltando à terra, esquecendo o céu em que sonha um dia morar, mas agora sabendo que não pode ser hoje, Maria pergunta o que tem no livro que trago comigo. Ah,  ela não sabe ler, mas tem muito vontade d aprender. O livro?! Ele conta histórias, Maria. Fui o mais sucinto possível.

Maria fica curiosa. Histórias para fazer criança  dormir? Não, Maria, infelizmente não, as histórias desse livro não são para fazer criança dormir, mas para despertar os homens, todos imperfeitos e incapazes de sonhar um dia em morar no céu. Muitos sabem não merecer essa morada.

Agora é a vez de Maria perguntar. Mas não me pergunta o porquê de eles, os homens, não merecerem essa morada. Sábia. Talvez. Não compreenderia. Também, pela vez minha, não saberia explicar para ela. Maria é criança. Somente os adultos são capazes de entender essas histórias.

Maria volta a olhar para o céu. É muito distante? Depende, Maria, depende quem está desejando ali morar. Olha para mim. Não entende a minha resposta. Fico feliz. Nenhuma dúvida. Maria ainda vai morar no céu.

 

 

 

 

 

Compartilhar...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*


6 × = dezoito

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>