A Música de Tom Zé que é toda Plágio

Se o caso é chorar, uma bela música de Tom Zé, na verdade, é uma colagem de plágios. O próprio Tom Zé conta a história numa entrevista:

 Aliás, essa música é toda plágio. É até bom aproveitar a oportunidade para contar pra vocês o lado avesso da história. Essa música fez sucesso, foi primeiro lugar na parada de sucesso no Brasil durante meia dúzia de semanas, durante um ano quase inteiro, em 1973, e essa música é toda plágio. A ideia de fazer uma canção toda plágio nasceu por causa de uma canção anterior, de que as pessoas de minha idade também se lembram, que é aquela
valsinha que dizia assim:

Passo a passo, braço a braço
Um sorriso, um silêncio
Sete horas, oito dias
Dezenove, vim te ver

— Essa música ganhou num festival da Hebe Camargo o primeiro lugar. E aí saiu no Estadinho [Jornal da Tarde, irmão mais novo do Estadão] na seção “O Leitor Escreve”, tava escrito lá: “A música de Tom Zé ´Silêncio de Nós Dois´ é plágio do Garcia Lorca na página tal qual…”. Eu disse, vala-me Nossa Senhora, corremo lá pra casa, pegamos o Garcia Lorca, fomos lá na página e hum… tinha lá também a palavra moita. Então tudo bem.

Mas eu falei assim, puxa!, é uma ótima ideia fazer uma canção que seja toda plágio.  Comecei a pensar no assunto e me lembrei dessa harmonia , que é do Estudo número 2, do Chopin. Vocês já conhecem ela em outra música brasileira, a mesma coisa também, só a batida é diferente [trata-se de ´Insensatez´, do Tom Jobim. ]

 A harmonia é a mesma. Então, peguei essa harmonia e botei… A forma, eu me lembrei que Antonio Carlos e Jocafi, naquele tempo davam as regras do mercado nacional com aquele tipo de coisa: a primeira parte menor [harmonicamente falando], com a sintaxe da língua portuguesa mais ou menos estranha, pra ficar parecendo uma coisa tipo luz de boate, assim simbolicamente, metaforicamente, num precisava dizer nada, bastava ter uma dorzinha e tal, e amor por aqui, amor por acolá, então eu comecei a construir essa estrutura, que não quer dizer absolutamente nada, prestem atenção:
Se o caso é chorar, te faço chorar
Se o caso é sofrer, eu posso morrer de amor
Vestir toda minha dor, no seu traje mais azul
Restando aos meus olhos o dilema de rir ou chorar

— No fim, eu tinha chegado a botar assim: “…Deixando meus olhos vazados de tanto chorar”. 

A minha mulher disse: “Assim, também não, assim é esculhambação, ninguém vai te levar a sério. Olhos vazados de tanto chorar? Que diabo, você é louco? Tenha paciência…”. Aí mudei a letra e Perna, meu parceiro [Antonio Perna Fróes, pianista baiano ], tava aqui em São Paulo e me deu a ideia da segunda parte; Ele disse: “Tem uma música dos Beatles –dos Beatles, não, dos Rolling Stones, uma imitação dos Beatles daquele tempo – que fala um negócio mais ou menos assim, deixa sangrar meu peito, um negócio assim, aí ele deu a ideia:

Amor, deixei sangrar meu peito
Pra tanta dor, ninguém dá jeito
Amor, deixei sangrar meu jeito
Pra tanta dor, ninguém tem peito
Se o caso é chorar…

— Agora, a segunda parte é uma colagem, não tem nenhuma palavra minha. Tudo música dos outros, vejam se vocês descobrem, eu juntei músicas de sucessos dos outros :

(cantando)
Hoje quem paga sou eu (um tango de Nelson Gonçalves) , o remorso talvez (Lupicínio Rodrigues)
As estrelas do céu também refletem na cama
De noite na lama (Inversão de Caetano), no fundo do copo (Ary Barroso)
Rever os amigos (Adelino Moreira e Jair Amorim), me acompanha o meu violão (Nelson Gonçalves)
Amor deixei sangrar meu peito…

 

 

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