A penúltima canção do Beco

A penúltima canção do Beco

(UM TEXTO DE J.M.VICTOR) 

      Assumimos um compromisso com a história dos nomes das avenidas, ruas e becos da cidade quando estivemos seis anos ocupando uma cadeira na Casa de Juvenal Lúcio de Sousa. Durante esse período firmamos esse pacto, de não mudar nenhum nome de rua, que foi honrado até o final de duas legislaturas.

      Apareceu na metade do nosso primeiro mandato uma demanda de um dos nossos companheiros de substituir o nome da Praça Alcides Carneiro pelo de um padre recentemente morto. Acreditava o parlamentar que a praça não tinha uma lei denominando-a, não foi encontrado nenhum documento nos arquivos da Câmara. Mas duas testemunhas de caráter ilibado confirmaram que a lei tinha sido sancionada. A primeira o saudoso procurador Orlando Jansen, defensor intransigente da manutenção do nome, e a segunda o prefeito que sancionou a lei, o meu tio Edimilson Fernandes Mota.

      O imbróglio foi resolvido em consenso, colocando o nome do largo defronte à praça e vizinho a igreja de “Largo Padre Hilário”.

      Recentemente um veterano vereador mudou o nome da Rua Vidal de Negreiros e o caso terminou na justiça, porque nenhum morador aceitou a mudança.

      Para alertar a nova geração de legisladores, escrevi na época um poema sobre o assunto, e dediquei ao querido amigo e intelectual Humberto de Almeida, que entende dessas coisas de nomes, títulos e sutilezas.

 

     Hoje senti saudades do Manuel

     Bandeira da poesia brasileira.

     No meu tempo de estudante,

     No velho Liceu da cidadezinha,

     Conheci o poema “Última Canção do Beco”.

     Naquela época tive vontade de morar num….

     Numa casinha com placa de ágata numerada.

 

     Quando o progresso chegou atirando no lirismo

     Mataram os nomes dos Becos da minha cidade

     E colocaram novos nomes de Travessas,

     Atravessadas, que ninguém chama pelo nome.

     – Esses velhos parlamentares destronados!

     Com os seus prefeitos de espíritos incultos

      Sepultaram a beleza da sabedoria popular.

 

      Para onde foi o Beco da Coréia?

      Por onde anda o Beco da Corda?

      Porque partiu o Beco do Emboca?

      Quem viu o Beco do Cruzeiro?

      Quem dá notícia do Beco do Colorau?

      Acanhada, a urbe não diz nada…

      – Acho que foram para Passárgada!

 

Patos, 07.06.18

Compartilhar...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*


× três = 15

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>