A QUEDA DO MEU PAI
o velho baraúna compadre heráclito de almeida

A QUEDA DO MEU PAI

 O meu pai levou uma queda. Eu não estava mais reticente. Senti, porém,  naquele momento,  que  queda do Império Romano era menos importante. Nenhuma importância tinha ante a queda do meu pai anunciada pela janela da sala de aula. Até mesmo a  queda do Muro de Berlim foi mais fácil de assimilar. A queda da Bastilha ?  Mais fácil ainda.  E a queda do meu pai?

Não direi que caí naquele instante com ele.  Estaria mentindo. Se ele de mentir não gostava,  hoje mais que nunca de mentir também não gosto.  A minha queda com a queda dele se deu devagarinho, doendo aqui e ali na esquina do coração. Escorregando no salão da memória.  

Foi assim. Tudo muito rápido. Um grito curto e uma queda surda. O coração velho e sempre jovem de Amor – era esse  o seu apelido – parava de bater. A notícia também batera forte em mim. Não assim de repente, mas o sentimento filial acendera a luz. Sabia que tudo estava consumado.

A minha mãe, porém, sua  companheira de estrada, ainda não havia caído. Assim eu não poderia cair com ele.  Mas, lá no fundo, caído, o corpo voltando à sua origem, sem medo de parecer mais fraco do que ele, caído estava também. Nem me veio à memoria a necessidade de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Seria inútil. Não teria conseguido naquela hora.

A queda do meu pai foi a última lição que ele deixou.  Projetos de Deus que não deram certo,  por mais que andemos baobás pela vida, assim como ele sempre andou, olhando para cima, fitando os picos das montanhas, um dia também cairemos.  Mas,   nos ensinou também, assim como Sêneca, que se um grande homem cair, mesmo depois da queda, ele continua grande.

E o meu pai assim continuou…

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