A síndrome de Telma

A síndrome de Telma

Há um bom tempo que conheci a negra Telma. Nesse tempo, se a memória não me falha, tinha uns vinte a vinte e cinco anos. Ela, a negra Telma, estava lá com os seus belos e bem distribuídos dezoito anos de vida e esperança.telma

Telma nunca foi de falar muito. Era uma sábia? Mais que isso: Telma sabia que sabia não era. A primeira vista muitos até achavam que Telma não fazia uso da palavra falada para se comunicar. Era uma muda que falava apenas com os olhos.  E como falavam os olhos de Telma!

Telma dizia com eles frases que as palavras nunca conseguiriam – nem conseguem – traduzir na forma escrita. Às vezes, com o seu olhar falante, Telma escrevia belos poemas que falava em borboletas e beija-flores disputando o nosso olhar. Mas não era aquele tipo de disputa em o vencedor deixas as batatas para o vencido. A disputa do olhar de Telma não tinha nada de vencer ou perder.

 Um dia, muito bem acompanhada de sua mãe, ela conta, isto é, a mãe de Telma, a bela negra Telma foi passar uns dias espalhando o olhar por outras plagas.  Viajaram. Foi ai que se o silêncio de Telma incomodava, infelizmente, incomodou ainda mais. Muito! Mas peraí que eu conto. Ou melhor: ela, a mãe de Telma, me contou.

 Num voo, com a duração de quase cinco horas, sentada ao seu lado, a mãe de Telma não ouviu de Telma o menor sussurro. Uma palavra? Nem pensar! Telma nunca se esforçou, mesmo com a mãe, para usar as palavras como meio de comunicação. Era assim: se falasse com ela, ela, sempre assim, pouco respondia. Se lhe perguntasse algo, sabendo, da forma mais sucinta que se possa imaginar, Telma respondia.

Aprendi – mesmo que ela disso não saiba – muito com ela desse meu silêncio que me faz um bem indescritível. Um bem arretado de bom. Se comigo alguém falar, tudo bem, respondo também com palavras. Entretanto, se me derem silêncio, agradecido, pois gosto dele mais que das palavras, em troca o silêncio também darei. Telma estava certa. Ou melhor: continua. Mesmo sem nunca ter ouvido falar em Públio Siro, Telma já filosofava:” Arrependo-me muitas vezes de ter falado, nunca de me ter calado”

Em Tempo:  Síndrome (do grego “syndromé”, cujo significado é “reunião”) é um termo bastante utilizado em Medicina e Psicologia para caracterizar o conjunto de sinais e sintomas que definem uma determinada patologia ou condição.

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2 comentários

  1. Conheci uma Telma, filha da saudosa Eva, que tinha o quase protótipo dessa tua personagem.
    Ou te serviu de inspiração.
    Abs.

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