A ÚLTIMA CRÔNICA DE MOLINA RIBEIRO
jornalista e escritora molina ribeiro

A ÚLTIMA CRÔNICA DE MOLINA RIBEIRO

 

LEMBRANÇAS DE MINHA VIDA

(Molina Ribeiro)

 

Neste mês de janeiro comemora-se o aniversário de nascimento de Hortensio Ribeiro. Hoje é véspera de um outro dia qualquer e eu estou triste. Acordei com saudades do meu pai. Tantas coisas aconteceram em minha vida depois que ele se foi. Meu pai. Quando eu resolvi escrever este texto, como um presente em seu aniversário, não tive dúvidas. Sua simplicidade falava, falava-me de um Deus que mora na ternura e que acolhe. Sua sabedoria falava-me de um Deus que não julga, mas compreende; que não afasta, mas ama. Seu olhar permitia-me viajar por aventuras ora corretas, ora necessárias para a minha curiosidade. Caí algumas vezes. Mas eu sabia que ele estava ali para qualquer arranhão mais doloroso. Ele não está mais aqui comigo. Está em mim, porque trago muito do que ele deixou. Mas não me abraça. Não sorri para mim. Não me diz coisas que cicatrizam as minhas feridas. Tenho saudade do meu pai. Do seu colo, das suas cantigas amadoras, acompanhado ao violão. Das histórias recontadas de uma vida marcada pela dor. Meu pai sofreu muito. E sem lamurias. Minha fortaleza partiu para junto de Deus. Eu entendo que estamos aqui de passagem. Tenho fé de que há um outro porvir, um lindo céu, (como canta Adriana), que nos aguarda, mas isso não retira de mim a saudade que dói.

Meu pai falava de mim com orgulho, da sua primogênita. Que gostava de rabiscar, que pensava que não havia idade para ingressar no mundo das letras transformadas em história ou em dizeres poéticos. Cora Coralina estreou na literatura aos 76 anos de idade e fez da vida e morte uma poesia: “Não morre aquele/que deixou na terra/a melodia de seu cântico/na música de seus versos”./ Ela escreveu isso muitas vezes. “Ajuntei todas as pedras/que vieram sobre mim./ Levantei uma escada muito alta/e no alto subi,/ Teci um tapete floreado/e no sonho me perdi./”

Hortensio Ribeiro não buscou o lado mais fácil da vida, mas conseguiu compreender que mesmo sem facilidade alguma era possível encontrar a tal poesia no cotidiano da dor. Não há poesia sem dor. A vida nasce da dor. O amor mais amado surge depois de uma dor prolongada.

Não há amor sem conquista. Os amantes precisam ao menos se deixar conquistar. As artimanhas da sedução têm um encanto próprio de quem tenta tocar no ponto frágil e depois fortalecer juntos. Amores doídos, os não correspondidos. Histórias de ausências, de lágrimas de quem deu e não recebeu. Não deveria ser gratuito o sentimento daquele que ama? Não é gratuita a chuva que cai abundantemente? A vida, toda ela é uma graça. Bem mas os homens não são deuses. E poucos são aqueles que conseguem dar sem exigir, sem projetar. Quebrando pedras e plantando flores. Quando penso nos sofrimentos de meu pai e Na sua leveza, fico me perguntando se uma coisa tem relação com a outra. Será que as pessoas que mais sofrem são as que mais amadurecem? Será que a dor é que tem o poder de dar majestade ao amor?

Não entendo a tristeza como ausência de felicidade. Acho que elas coexistem. Somos felizes e tristes. Felizes porque tentamos entender a nossa missão. Tristes porque assim tem de ser. A tristeza nos empresta respeito ao outro e percepção mais aguçada da dor. Talvez tristeza seja ausência de alegria, de riso fácil, não de felicidade.

Chorei a ausência das reações humanas daquele corpo sem vida. Chorei a orfandade incômoda, o adeus forçado, a separação. Choro hoje a impossibilidade dos afetos.  É abstrata sua presença. É memória e esperança. Apenas isso. Meu pai amado não passa mais os natais comigo, nem os seus aniversários.

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