Agora, ponte levantada, o Jaguaribe corre mais livre para o seu porto seguro…

Agora, ponte levantada, o Jaguaribe corre mais livre para o seu porto seguro…

Não é preciso dizer que chove lá fora. A chuva mais que visível é sensível. Hoje em especial. Daqui, braços abertos para os amigos, no Cristo Redentor, enquanto a Rosa prepara o melhor da arte para dividir essa arte com os seus alunos, desvio o olhar entre os pingos de chuva que caem, e fico a imaginar um balé somente de olhos felizes.

Vejo o meu Jaguaribe. O rio que também é meu! Esse mais bonito que o Tejo  do Fernando Pessoa. Faz tempo que não vejo o meu Jaguaribe assim tão cheio de vida, de esperança e de… água! Só não gosto de lembrar o dia em que ele não tão cheio assim “pescou” os três filhos de Penha. Mas logo teve o meu perdão. Afinal, não foi porque ele quis, os rios nunca olham para trás.Daqui não tenho ainda os olhos espalhados pela minha Mata do Buraquinho e o Rio Jaguaribe,  molhados. Ainda não. Também não preciso. Não preciso que os meus olhos tragam esse bairro para dentro de mim, pois, assim como a casa em que nasci, esse bairro também dentro de mim  mora.

A chuva inspira o coração. Agora, ponte levantada, o Jaguaribe corre mais livre para o seu porto seguro. A chuva cai lá fora. Um sol que não tem tamanho permanece dentro da casa do peito. Raul Seixas se inspirou numa chuva que acredito, naquele momento, não caía pelo lado de fora. Perdeu o medo da chuva. Era o ano de 1974. Um ano sem muita chuva. A chuva que voltava à terra trazia coisas do céu. Ele dizia. Não sei se o medo dele era de que a chuva voltando ao seu ponto de partida trouxesse o inesperado da surpresa.  Também perdi esse medo. Melhor: nunca tive medo da chuva,

E a Chuva de Prata do Ed Wilson e Ronaldo Bastos? Essa é mais nova, 1984. Foi gravada pela Gal Costa e outras. Essas outras, porém, mesmo com algumas boas, nenhuma conseguiu superar a “boca de palhaço”, como ela se autodenomina.Tem uma suavidade que cativa os ouvidos logo na primeira escutada. “Chuva de prata que cai sem parar/quase me mata de tanto esperar…”. Eu não esperaria. A chuva nunca me atrasou.  E não adianta:  chuva pode ser também o perfume do amor.

E chuva que caiu no ano de 1991 e inspirou a dupla Roberto e Erasmo?  Escuto Roberto, O tenho como um dos maiores cantores deste país em que sinto a falta do Emilio Santiago. Ainda. Tudo isso para dizer que escuto Roberto Carlos? Não. Só para ratificar que enquanto a chuva cai lá fora, um sol dentro peito grita de calor.

 Mas bem que eu poderia – e gostaria, por que não? –  nesse momento de ouvir o filho de dona Laura cantando a sua “Chuva fina no meu para-brisa/ Vento de saudade no meu peito/ Visibilidade distorcida pela lágrima caída/ Pela dor da solidão”.  Não me fere os ouvidos. Entre a música boa e a ruim, prefiro as duas.

A chuva inspira.  Daqui, vejo-a, sinto-a acabando-se em pingos lá fora. Nem todos os pingos dançam no mesmo ritmo. Os que caem sobre os nossos – o meu e o da Rosa – tordilhos de pele vermelha parecem sapatear.  Escuto o som das chapas metálicas da sola dos seus sapatos de água sobre os seus corpos de aço.

 E o bom – bom não, o ótimo –  Sergio Sampaio filosofando enquanto os pingos caem numa dança descompassada? ”Eu pra você fui quase uma ponte/Você atravessou em busca do horizonte/Você pra mim foi mais que a chuva fina/Alimento, vitamina da minha fonte. ”

Uma beleza ver a chuva caindo lá fora.

Enquanto isso, cá por dentro, vou me levantando a cada minuto. Em breve, muito em breve, verei apenas a chuva cair. Estarei mais em pé do que nunca. Não fui destruído. Nem por fora nem por dentro.

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