BONS TEMPOS AQUELES DAS GOTEIRAS NA INFÂNCIA…

BONS TEMPOS AQUELES DAS GOTEIRAS NA INFÂNCIA…

Dona Chiquinha

Dona Chiquinha

As crônicas escritas num dia de chuva são quase sempre as mesmas. Os mesmos temas. As mesmas biqueiras derramando água e lembrando os nossos tempos de infância. Os banhos de biqueiras nas poças de água.

– Menino, entra! Tu Vai (sic) gripar! Você não vai entrar em casa todo molhado assim. Nunca.  Olha só que roupa. Mais tarde vai tossir A noite todinha. E os sapatos? Você vai tem que passar o ano todinho com eles. Se no colégio proibirem sua entrada com esse “lixo” não tem mais jeito. Acabou o ano.

Essa era Dona Chiquinha, a minha mãe.

A chuva ainda nem caía na minha Rua 12 de Outubro. Não começou ali. Na casa 950 dessa rua, abri os olhos e dei os meus primeiros e muitos passos. Apenas. Os passos maiores, esses mais seguros, começaram mesmo na Rua Senhor dos Passos, 141, no mesmo bairro do meu Jaguaribe, a minha República Independente.

– Tá vendo aquela goteira ali? Faz tempo que eu peço para alguém tirar! Mas vai ser sempre assim! Ninguém se lembra! Com o sol lá em cima só querem mesmo vadiar! Ah, vou pra pelada!   Pelada? Só pensa nisso!  E era uma goteirinha de nada, mas gora tá chovendo como nunca. Parece que não quer parar mais. A goteirinha virou uma cachoeira.

Essa ainda era Dona Chiquinha, a minha mãe.

– Afasta a cama, o guarda-roupa, cuidado com a televisão. Se a água bater aí já era. E olhem não der um pipoco do cão.  Cadê o pano para impedir que a água venha pra sala? E o outro para evitar que ela vá pra cozinha? Meu Deus!

Não era outra. Ela mesma. Dona Chiquinha quando começava…

– Olhem ali, olhem ali. Pelo amor de Deus!  Olhem só como está a cama? Dormir numa cama dessa? Ah, isso é se arriscar a pegar uma pneumonia do cão! Levanta o colchão e encosta na parede. Não! Aí não! Será que não estão vendo que o chão virou um rio?

– Ah, cuidado também com a “chuva de vento”! Ela entra por tudo que é buraco! Seja com o vento ou sozinha. A chuva para entrar aqui não precisa de companhia nem pedir licença. Meu Deus! Viram agora o tamanho do relâmpago? Preparem os ouvidos que vem trovão por aí!

– Ah, menino deixa de cavilação! Trovão nada tem a ver com Deus batendo tambor para anunciar o fim do mundo! O perigo é esse “risco de fogo” que corta o céu lá em cima e cai espalhando brasa pela terra molhada! Ah, esse é o perigo!

Nem preciso dizer que os parágrafos ai, cheios de exclamações, doces exclamações, são de Dona Chiquinha.

– O trovão é somente gargalhada de Zeus zombando do medo da gente!  Estão se acabando de tanto sorrir no Monte Olímpio. E não me perguntem onde é que fui buscar essa história de Monte Olímpio!  Essa chuva não acaba mais! Tiraram as roupas do arame? Varal? Nada de varal: arame! Foi ali que pendurei as roupas de vocês!

– Meu Deus! Tomara que essa chuva passe logo! Tenho medo dos castigos de Deus! O mundo parece que vai se acabar mais uma vez em água! O sertão virou mar! Um mar de chuva! Quem vai a padaria comprar o pão nessa chuva toda? Ninguém? Tudo bem! Hoje só tem café! Café sem pão!

Quem ?!  Não poderia ser outra.

Era assim.  A Chuva nem aí. Mas Dona Chiquinha…Que saudade!

Esse último é meu.

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