Antonio Barreto Neto, Barreto ou Barretinho:  a simplicidade em pessoa.

Antonio Barreto Neto, Barreto ou Barretinho: a simplicidade em pessoa.

Há muito que este escriba perguntava  o porquê de ninguém ainda ter prestado uma justa homenagem a esse sujeito que ensinou – embora muitos não tenham aprendido –  tanta a gente a escrever, e fez com que o admirássemos pelo bom caráter que fora em sua breve passagem por esta cidade. Escrevendo simples, como simples ele fora, Antonio Barreto Neto transformava as coisas mais difíceis nas mais fáceis desta vida Severina.

Barreto era a simplicidade em pessoa. Um jornalista e crítico  capaz de trocar em miúdos os mais graúdos e complicados assuntos.  Tudo sem aquele ar enfadonho e chato, metido a erudito e  tão característico de alguns de nossos “cultos” escrevinhadores de plantão.  Este escriba e MB era um admirador confesso do excelente jornalista e desse bom sujeito como poucos que conheço. Tinha mais: a sua – dele – presença de espírito era também uma de suas boas marcas registradas.  Barretinho, como carinhosamente era chamado pelos mais próximos, agora sem o peso da roupa de carne e osso, era dono de um dos  mais limpos – talvez o “mais” –  e corretos textos jornalísticos da Província das Acácias. Um escorreito texto?  E ponham “escorreito” nisso!

Lembro às vezes que me flagrei, brincadeira entre mestre e aluno, procurando uma palavra que melhor substituísse aquela usada por ele em um de seus intocáveis artigos. Mas tudo debalde!  Ora bolas!  Se eram “intocáveis” como alguém e em particular um pobre escriba neles poderia  tocá-lo? Ó Ledo Ivo engano! A verdade é que os  textos de Barreto despertavam no leitor o prazer da leitura. Sim, prazer!   Mesmo sabendo que para a leitura ser boa,  sem esse S,  terá  essa de ser prazerosa.  Sinto faltar em nossos críticos e cronistas a simplicidade que pautava os escritos de Barreto Neto. . 

Outra boa e risível lembrança vem daquele dia em que um dos nossos intelectuais de textos considerados difíceis, eruditos, porém chatos, fez com que o bom Barreto Neto,  respeitado  leitor e estudioso (sempre se aprimorando) como poucos, se achasse “velho e burro”. O intelectual, contou Barretinho,  estava cada vez mais “profundo e difícil”. Sorrimos juntos.  Sorri com o quadro: um intelectual ininteligível e um Barreto velho e burro.

Uma característica  do estilo Barreto que aqueles que tiveram a felicidade de ler as suas bem-traçadas linhas puderam comprovar,  essas publicadas nos mais diversos jornais da imprensa provinciana e fora dela, era a simplicidade. Barreto nunca complicava!  Se queria escrever que o rei estava nu e com a sua – dele, do rei – bunda cheirando mal, nunca escrevia que ele” andava mal vestido e exalando um cheiro desconhecido pelos súditos”. O tempo passou e, convidado por Barreto, sempre, escrevi em quase todos os jornais pelos quais ele passou.

- “Véio, vamos pra lá… Pagam uma besteira! Tuas escritas casam bem com a BA! E eu gosto muito!”

Era o salário! Barretinho “gostar muito” das minhas mal-traçadas era a glória! Assim acabava aceitando o convite. Aceitava também para estar perto dele, ler as suas coisas e com ele aprender. Ah, ouvir as suas certeiras opiniões:

- “Véio, tu não acha (embora conhecendo a língua como poucos, gostava desse falar Zé da Silva) melhor cortar aqui?”.

Não tinha de achar. Se ele achava, encontrou primeiro, que cortasse. E por que não agradecer ? Uma vez que nunca houve de sua parte qualquer intenção de censura pelo corte? E como tinha razão o Barretinho! Depois das mal-traçadas publicadas, este Malabarista de Palavras veria que sem ele, o corte, o texto acabaria numa “hemorragia de palavras”.

Em um dos nossos últimos encontros, ele ainda na velha roupa de carne e osso (não poderia ser diferente) e eu mais gordo e mais velho, mais carne do que osso, se a memória não me falha indo nesse dia para a Unimed , onde , se a memória não continua falhando,  trabalhava, doido para assistir a uma “coisa nova”, o crítico recomendou:

- “Véio, dá uma olhada no filme do Nicholas Ray, no  “Jonnhy Guitar” …

- Um filme de 1954, Barretinho, uma coisa nova?!

Obtemperei.

Mas Barretinho estava coberto de razão. Acertara mais uma vez. O filme de Ray Nicholas será uma “coisa nova” ainda por muito tempo. Ele via o que muitos dos nossos críticos, apesar dos constantes exames de vista, não viam. E se não via tudo, via o que os outros ainda hoje não conseguem ver.

Os meus sinceros agradecimentos a Barretinho. O escriba bem que poderia ter aprendido mais.

Que a terra lhe seja leve com papel jornal!

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