Aquela banda não passou!

Aquela banda não passou!

Eram cinco horas da manhã. O frio varava o corpo pesado de sono num quartinho de hotel na serra de Cuité. Era a “alvorada” que descia das nuvens espessas e úmidas molhando os remígios de uma pobre alma solitária. A esta “alvorada” juntava-se outra, quase como “sons subterrâneos do orbe oriundos”, como diria Augusto, embora não fosse o “choro da energia abandonada”, despertando de vez meus sentidos ressacados por uma noite longa de ilusão e boemia.

A melodia do dobrado, na sua cadência militar, lírica e saudosa, adquiria consistência acústica e harmônica, à proporção que, ainda meio sonâmbulo e etilizado, eu ia de encontro ao chamado inenarrável da banda municipal, exibindo-se no adro da igreja em plena manhã, num ritual de beleza rítmica que paralisava o fluxo do tempo e encantava o tecido vago das horas e dos minutos mágicos de uma sólida epifania.

Poucas coisas me comovem tanto como os dobrados da infância, uma banda de música, uma praça, um coreto, uma retreta, enfim, todo um repositório de valor simbólico que se transmuta em finos e preciosos cristais da memória afetiva e duram para sempre na correnteza perene da saudade. A banda de música de minha infância vale como um poema, e se se transformou em retrato na parede; apenas dói, e como dói!

Ouvi “Alvorada”, e ouvi muitos outros dobrados, no privilégio de quase único espectador daquela poesia coletiva e isométrica, na ordem particular dos ritos e roteiros que só as bandas do interior sabem ofertar. Claro: lembrei de minha infância; lembrei de minha Comarca cercada de pedras, da pracinha, da igreja e da banda… Sobretudo da banda regida pelo mestre Antônio de Félix, e cujos músicos semeavam, com seus instrumentos de sopro e percussão, os campos abertos da alheia sensibilidade.

Seja nos ensaios, seja nas apresentações formais, em dias de festa ou de solenidade, ver e ouvir a banda era um dos prazeres mais cobiçados. A música, em sua simetria surpreendente, como que me transmitia, pelo menos a mim, a noção difusa de que existia alguma coisa para além do dado factual que me envolvia numa cidadezinha desolada e perdida do cariri paraibano.

Seu Zuza, com sua tuba, Lourinho, com seu trombone de vara, Zé Moisés, com seu sax, Louro, com seu trompete, entre outros, transfiguravam sua simplicidade cotidiana através de uma linguagem que me dava, como uma instantânea alquimia, notícias de verdades distantes e de valores e símbolos que ampliavam meu olhar de menino sobre os vastos descampados da realidade. Qualquer coisa de pedagógico era afinada pelos metais cintilantes de seus instrumentos musicais.

Era uma espécie de estranha convicção me tocando a carne da sensibilidade: aquele mundo não era aquele mundo; aquela vida não era aquela vida; aquela banda me ligava a outras paisagens; me dizia de meu vínculo telúrico e me jogava na beira do mundo, convocado por outros abismos que só a imaginação pode ultrapassar. Aquela banda me ensinou os primeiros compassos da poesia. Aquela banda, sim, não passou!

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