Cardoso Carmen costa

Dom Cardoso
Carmen Costa – Eu sou a outra

Esse belo samba-canção “Eu sou a outra”, de autoria do compositor e jornalista Ricardo Galeno, retrata com fidelidade as relações amorosas de Carmen Costa e seus parceiros musicais, e
anos depois a própria Carmen assumia. Estas ralações amorosas fizeram com que alavancasse sua carreira, no samba-canção “Eu sou a outra” que viria a se tornar o hino das outras mulheres.
Gravado nos anos 50 por Carmen Costa, essa excepcional cantora, dona de um repertório de altíssima qualidade, que a coloca num panteão de diva na música popular brasileira, é uma celebridade musical totalmente esquecida do grande público.
Carmelita Madriaga, Carmen Costa nasceu na Fazenda da Agulha, município de São Francisco de Paula (hoje Trajano de Morais), interior fluminense distante 240 quilômetros da cidade
do Rio de janeiro. Era o ano de 1920, o dia 5 de julho. A mãe Dona Avelina Basílio teve Carmelita e mais seis filhos.
Carmen Costa já nasceu com a síndrome da outra. Porque até sua concepção se deu em razão da sua genitora ser uma mulher negra, bonita e charmosa ao ponto de enlouquecer e conquistar
o coração de um descendente de espanhóis, que tinha olhos verdes, Theotônio José Madriaga (Tonho Madriaga), proprietário de uma grande fazenda produtora de café, no município de Trajano de Morais, no Estado do Rio de Janeiro, e que era casado. Porém, assumiu a paternidade e ela foi batizada com o nome de Carmelita Madriaga. Porém, Carmen Costa somente foi apresentada ao pai quando tinha 8 anos de idade. Menina da roça, Carmelita trouxe as rezas, os benditos e as histórias de assombração que enchiam de medo as noites de lua cheia. Recordações da infância cuja figura mais forte, sem dúvida, é Dona Avelina Basílio. Dona Avelina era a outra na vida de Tonho Madriaga, homem que teve duas filhas chamadas de Carmelita de duas relações diferentes. Os últimos anos de Dona Avelina Basílio foram ao lado da filha numa convivência fraterna. “Minha mãe foi a única pessoa que mostrou luz para mim”, afirmava Carmen Costa,
relembrando a infância. Durante a infância, Carmelita percorreu
por diversas fazendas sempre na condição de doméstica. Até que encontrou um casal de pessoas que professavam a religião evangélica, na qual se cantam muitos hinos e se aprende a cantá-los, por sinal uma escola para iniciar no canto. Cantar nas
igrejas evangélicas nos Estados Unidos tornou uma tradição, onde grandes cantoras negras tiveram como escola de canto.
Passava o trem levando gente para a cidade grande. A menina Carmelita Madriaga olhava o trem com a certeza de que um dia ia embora. Ela só não imaginava que trocaria de nome, viajaria
para lugares mais distantes ouvindo aplausos por cantar os sentimentos do mundo.
Em 1935, Carmelita, menina jovem, aos 15 anos, veio definitivamente para a cidade grande, morando em diversos morros do Rio e Niterói. Seu primeiro emprego foi num salão de cabeleireiro em Copacabana (Rua Toneleiros) onde fazia coques ganhando um tostão por dia. Ela resolve procurar trabalho de doméstica para ganhar mais. Deixa o salão e se empregar numa casa de família onde a patroa tocava piano. Carmelita
observa a patroa tocando piano e decide tocar violão, instrumento mais em conta para o poder aquisitivo de uma doméstica. Na época, violão era um instrumento restrito a um pequeno grupo de
marginalizados pela sociedade. Por isto, Carmelita chama a atenção dos passageiros da barca Rio-Niterói quando viaja voltando para casa (em 1936, ela morava no morro de Santa Rosa), carregando um violão debaixo do braço. Os primeiros contatos de Carmelita com uma estação de rádio ocorreram na Rádio Ipanema onde costumava assistir à orquestra do maestro Napoleão Tavares. É ali que, aconselhada por amigas, Carmelita vai bater na Rua Gustavo Sampaio, Leme, onde precisavam de uma doméstica. O dono da casa era Francisco Alves, o Chico Viola, o “Rei da Voz”. Chico contrata Carmelita. Francisco Alves foi um dos mais populares cantores do Brasil, na primeira metade do século 20, e considerado por muitos o maior cantor do país. A qualidade de seu trabalho lhe rendeu, em 1933, pelo radialista César Ladeira, a alcunha de “Rei da Voz”. “Carmen Miranda vem aqui em casa hoje à noite. Você pode ficar até tarde servindo uns salgadinhos pra gente?” Carmelita se entusiasma diante dessa informação de Chico Alves. Claro que ela queria conhecer Carmen Miranda. E mais: Carmelita ia pedir para cantar. Carmelita passou o dia com dois problemas: escolher uma música do repertório de Carmen Miranda e tomar coragem para pedir a oportunidade de cantar para o patrão e sua ilustre convidada. “Seu Chico… Dona Carmen… Eu posso cantar? Essa foi a única frase pronunciada por Carmelita depois de tomar toda a coragem do mundo. Os dois artista riram muito. “Se você pode cantar… pode cantar”, falou Chico Alves. Aplausos. Carmelita cantou “Camisa listrada” do compositor Assis Valente. Com Carmen Miranda, Carmelita teria outros encontros. Participou do coro da “Pequena Notável” em diversas gravações, experiência fundamental em sua carreira. Quando se apresentava no Clube Aliança, Carmelita foi abordada por um homem que lhe prometia ajuda para alcançar o profissionalismo. “Você precisa se arrumar… melhorar sua aparência… Não pode se apresentar com um sapato tão feio…” O homem enumerou uma série de providências que precisavam ser tomadas para transformar Carmelita numa artista. “Moço, eu aceito… agora, o senhor tem que falar com minha mãe porque eu sou solteira.” O homem acompanhou Carmelita até em casa e pediu a Dona Avelina a mão da filha em casamento. Esse homem se chamava Henrique Felipe da Costa, o Henricão. Ele foi o primeiro parceiro artístico de Carmelita formando dupla no canto e na composição de músicas. Henricão também foi o primeiro homem na vida de Carmelita. Homem com quem ela dividiu grandes ilusões e ardentes paixões. Casar mesmo, Henricão não casou. Carmelita vivia esperando o parceiro voltar das inúmeras viagens de negócios. Esperando Henricão, ela perdeu a oportunidade de formar dupla com Grande Otelo no Teatro Negro que se formava. Perdeu chances nos teatros da Praça Tiradentes. Ela achava que precisava esperar Henricão porque era com ele que alcançaria o sucesso pessoal através do casamento e o profissional através da música. Carmelita morava num quarto, porque não queria dormir sob o mesmo teto que a mãe sem ter casado. Uma das grandes qualidades de Carmen Costa era a fidelidade ao seu parceiro a qualquer preço, mesmo em detrimento de sua carreira. Armando Silva Araújo, espécie de empresário de Henricão, chamou Carmelita e lhe deu a seguinte incumbência: “Você vai viajar hoje para Belo Horinzonte. Henricão te espera lá”. Sem maiores explicações, Carmelita embarcou num trem seguindo para a capital mineira. Lá, acontecera o seguinte: Henricão brigara com Adília Jordan, sua parceira nos shows do Cassino Montanhês. Sem ter a quem usar, Henricão resolveu lançar a candidata a cantora com quem vivia. Carmelita Madriaga vestiu um modelo verde-alface emprestado por uma cantora Argentina para fazer o teste no Cassino Montanhês. O teste foi perfeito e valeu um contrato de 15 mil réis por mês. Henricão determinou que a companheira não seria mais Carmelita Madriaga, nome pouco artístico. “Vou batizar você! A partir de hoje, você se chama Carmen Costa!” No ano de 1939, Carmelita Madriaga virou Carmen Costa.

 

 

Dom Cardoso
Carmen Costa – Eu Sou A Outra – Parte 2

Carmen Costa, cantora que desafiou a moral dos anos 50. “Capaz de transformar a dor em versos. De cantar o amor em suas mais diferentes formas. De encantar plateias, no Brasil e no exterior. Ser artista, ser estrela. Assim era Carmelita Madriaga. Menina doce, que cresceu forte e alcançou sucesso com o nome artístico Carmen Costa”. Intérprete de melodramáticos sambas-canção e de sucessos carnavalescos, artista foi do profano ao sacro em discografia que inclui discos com temas religiosos.

Em 1938, Carmelita Madriaga, que ainda não tinha o nome artístico Carmen Costa, conheceu um jovem afro descendente, com quase 2 metros de altura. Cantor, compositor, jogador de futebol e ator, este jovem chamavase Henrique Felipe da Costa, conhecido como Henricão, e estava participando de um programa de rádio com o mestre Ataulfo Alves, que o apresenta a Carmelita Madriaga.

O grande, Henricão chega a ser o primeiro negro em São Paulo a ser coroado Rei Momo. O jovem Henricão era bastante elegante, falante e envolvente. E com estas qualidades elenca Carmelita Madriaga que se tornar presa fácil para de imediato se envolver musicalmente e emocionalmente. Ele era bastante conhecido no meio artístico, desfrutava de um certo prestígio entre os sambistas da época, dentre eles o grande mestre Ataulfo Alves. Henricão conquista o coração da nova e promissora cantora Carmelita Madriaga, dando início a uma carreira musical de sucesso, cantando em dupla com Henricão até o ano de 1942.

Henricão era uma figura folclórica. Batizou mais de quinze cantoras com o sobrenome “Costa”, prometendo sucesso em suas vidas artísticas. Tentou colocar Carmen Costa na “zona” para ganhar dinheiro às custas dela (coisa que não se concretizou, porque o Juizado de Menores interveio) e nunca dividia os lucros com as músicas.

Carmen Costa gravou sucessos em dupla com Henricão. Na maioria das vezes, as músicas eram assinadas por Henricão e Rubens Campos, embora Carmen Costa entrasse nas parcerias extraoficialmente.

A primeira gravação individual de Carmen Costa foi feita na Victor, em 1942. Com “Está chegando a hora”, versão de Henricão e Rubens Campos, da valsa mexicana “Cielito lindo”. Gravada um pouco antes do Carnaval, apenas 35 cópias do disco foram distribuídas pelos autores e a intérprete por diversas emissoras, e a música se tornou um dos grandes sucessos carnavalescos do ano seguinte.

Sobre “Está chegando a hora”, existe a seguinte história: em 1942, Carmen e Henricão se apresentavam numa feira em Recife, quando viram um casal mexicano dançando ao som de “Cielito lindo”, uma canção popular do México. Carmen ficou pensando nos finais dos shows, uma música que fechasse as apresentações transmitindo uma despedida. Aí nasceu a letra que não existe brasileiro que não conheça. A música, avisando o final do baile de Carnaval se aproximando: “Quem parte leva saudades de alguém que fica chorando de dor / Por isso, não quero lembrar quando partiu meu grande amor! / Ai… Ai… Ai… Ai… Tá chegando a hora! / O dia já vem raiando meu bem / Eu tenho que ir embora!”

“Está chegando a hora” veio pronta do Recife sendo lançada no Assirius (cabaré localizado no subsolo do Teatro Municipal do Rio). O público gostou tanto da música que Carmen apostou tudo nela. Gastou 600 mil réis para gravar em 78 rotações na certeza de que ganharia o Carnaval. Essa música não só venceu o Carnaval daquele ano como projetou Carmen pelo Brasil inteiro.

Na primeira vez que Carmen Costa compareceu ao estúdio da Rádio Fluminense, tomou consciência da magia do rádio. Ouvindo em casa o programa, o ouvinte pensava que o apresentador estaria recebendo inúmeros convidados em meio a um movimentado cassino com roletas, garçons e orquestras. Era essa ideia concebida por Carmen quando Henricão a levou para ser entrevistada por esse novo apresentador que fazia sucesso com tão movimentado programa. Carmen fez até questão de se vestir como se fosse uma apresentação num cassino tipo Copacabana ou Urca.

A Rádio Clube Fluminense ficava localizada no meio de uma chácara pantanosa, na Icaraí deserta de 1939. O apresentador estava no estúdio, acompanhado apenas de um operador de mesa (no rádio, o técnico responsável pelos microfones e pela mesa de som) e diversos objetos que emitiam sons de copos, passos, etc. Seu nome: Abelardo Barbosa, um pernambucano ex-estudante de medicina, que ganhara o apelido de Chacrinha por causa da chácara na rua Pereira da Silva, Icaraí. Apelido que incorporou ao nome e que virou sinônimo de bagunça devido ao clima pouco informal imprimido ao seu programa.

Você precisa de um descarrego, nega! – recomendou Henricão – Muita gente tá com inveja de você! – Mas como é que eu vou consegui este descarrego? – Eu tenho o lugar certo pra tirar o peso das tuas costas. Carmen foi parar em um terreiro num lugar estranho perdido num subúrbio do Rio. Henricão deixou Carmen com o pai-de-santo e sumiu, prometendo voltar quando o serviço espiritual estivesse completado. Ela não sabe o tempo que passou por lá.

Carmen não teve dúvida, Henricão queria dominá-la. Por isso, estava ali. Por isso, o pai-desanto cantava ponto, riscava o chão e dava misturado para ela. Henricão queria uma mulher passiva, submissa. Uma mulher cantando para ele sem reclamar o dinheiro das músicas, dos shows… Henricão tinha tentado apagar a memória da cabeça de Carmen, mas era ela que iria apagar esse homem de sua vida.

Riscada das parcerias musicais, trabalhando sem ganhar dinheiro, ameaçada de apanhar, impedida de conversar com qualquer homem. Henricão era muito forte, com quase dois metros de altura e, se encontrasse Carmen conversando com outro homem, queria logo briga. Carmen dá a decisão final a Henricão. – Me levar pra um terreiro foi a última que tu aprontou comigo! – Como é que você vai viver? – Cantando sozinha! Sem dupla contigo que só atrapalha e não ajuda.

Carmen Costa começa a carreira sozinha. Afinal, já estava em condições de se lançar nessa aventura. Assim, lá vai Carmen Costa solitária no palco, nas estações de rádio, nas gafieiras, nos cassinos… A vida de Carmen Costa tinha esse destino, progredia por etapas através do aprendizado do sofrimento.

A Henricão, Carmen ficou devendo o batismo artístico, o novo timbre de voz – ela teria ficado com a voz mais rouca devido a uma chuva que pegou acompanhando o parceiro do Teatro Municipal até a Praça da Bandeira – e a decepção amorosa. Decepção amorosa que, na sua vida, não seria a única. Já estava a caminho, Hans Van Koehler, o americano com quem se casaria, com quem viajaria para os Estados Unidos, com quem queimaria mais uma etapa no aprendizado do sofrimento.

 

 

Dom Cardoso
Carmen Costa – Eu sou a outra (parte III)

Carmen Costa cantava na Feira de Amostras, em Manaus, quando conheceu Hans Van Koehler, um americano descendente de holandeses, funcionário do governo dos Estados Unidos. Hans trabalhava na extração de borracha, um negócio rendoso; gostava de corridas de automóveis e circulava com interesses comerciais pelo Brasil. Num português cambaleante, Hans chama a cantora para sua mesa, iniciando uma conversa envolvente. Em pouco tempo, Carmen Costa se torna Koehler, numa cerimônia de casamento em Belém do Pará. A vida de Carmen Costa nos Estados Unidos se divide em duas partes: 1946 e 1959. Agora começa a primeira viagem. Acompanhando o marido, ela chega aos Estados Unidos no dia 5 de julho de 1946. Carmen foi a terceira mulher de Hans Koehler (ele se casou pela primeira vez aos 18 anos de idade). Dos casamentos anteriores, Hans trazia dois filhos: Walter e Julian. O primeiro espanto provocado em Carmen pela personalidade do marido foi a observação de Hans ao olhar diversos troféus que a mulher trouxera para sua casa em Nova Jersey: “você tem tudo isso?! Eu não ganhei isso na minha carreira!”. Carmen descobriu, aos poucos, o caráter instável do marido. Ele não a deixava cantar. Colocava cadeado no telefone evitando qualquer contato da mulher com o mundo externo. Sumia de casa durante longos períodos. Impedida de trabalhar, Carmen foge de casa e vai para Nova Iorque. Ajudada por uma família de porto-riquenhos, ela canta no Triboro, um cine-teatro no centro de Nova Iorque. O sucesso é grande, obrigando a cantora a fazer temporada. Hans tenta fazer as pazes. No entanto, a relação fica insustentável. O americano bebe e some de casa. Acusa os homens brasileiros de ladrões e as mulheres brasileiras de vagabundas. Carmen Costa parte em viagens pela América do Sul. Um roteiro de apresentações em Caracas e em Bogotá. Durante sua estada na Colômbia, conhece os horrores da revolução. E é justamente na Colômbia que essa luta começa, pegando Carmen Costa desprevenida. Foram onze meses trancada em casa, ouvindo tiros e gritos. Em 1949, o casal volta ao Brasil e vai morar em Fortaleza. Mais uma vez, a responsabilidade de botar dinheiro em casa fica por conta de Carmen. Hans nunca tinha dinheiro, envolvido em negócios que não se concretizavam. Ela era responsável até pelo pagamento da escola de Julian, o enteado, que ficava internado no Colégio Batista para que Carmen trabalhasse. Walter, o outro filho de Hans, ficara nos Estados Unidos morando com a avó paterna. O rompimento definitivo acontece quando Carmen volta para casa depois de um show e encontra o marido com outra mulher na sua casa. “Trabalhar sustentando a casa e ainda te encontrar com outra mulher em minha cama, não dá! Pra mim, chega! Carmen volta para o Rio de Janeiro sozinha, tentando recomeçar a vida mais uma vez. Grande Otelo viaja com Carmen para São Paulo prometendo introduzi-la na noite paulistana. No entanto, as insinuações de Grande Otelo levam a outra conclusão… “Otelo! Eu conheço tua mulher! Fiquei na casa de vocês! Como é que você me vem com uma conversa dessa? Eu vim pra cantar contigo… só isso!” “Mas já que a gente tá aqui… A gente pode se acertar!” A resposta foi o lançamento de um prato direto na cabeça de Grande Otelo, que no procedimento cirúrgico ganhou quatro ponto com o incidente. Boate Mocambo, Copacabana, 1950. O local e o ano de um encontro marcante. Um dos muitos complicados casos de amor da música popular brasileira. De um lado, Carmen Costa. Do outro, Mirabeau Pinheiro. Caso de amor que deu música, uma filha e a certeza de que amor e sofrimento são dois sentimentos que, misturados, machucam a vida da gente. Mirabeau tocava bateria na Boate Mocambo, quando conheceu Carmen Costa. Ela gravara uma música sobre Vila Isabel e Mirabeau compôs uma resposta. Carmen gostou da música e amigos promoveram o encontro entre os dois. O romance começou como todo romance começa. Olhares que se encaixam, descobertas de afinidades… Mirabeau disse que era solteiro, pai de uma filha. Mirabeau Pinheiro nasceu em Alegre (Espírito Santo). Instrumentista e compositor de rara intuição, era capaz de fazer músicas num momento inesperado. Ele confessou acreditar apenas em compositor de inspiração. “Não confio em música feita por encomenda”, disse ele na Revista do Rádio em 1954. Carmen Costa afirmou: “Ele era capaz de sair pela rua e, de repente, cantar uma música prontinha.” Carmen Costa gravou 33 músicas de autoria de Mirabeau Pinheiro. Foi por intermédio da voz dela que se tornou conhecido, alcançando o auge de sua carreira no período de 1953 a 1956. Num encontro na Rádio Mayrink Veiga, os dois falam em se unirem definitivamente. Cogitam até casamento na Argentina, única solução para a união de um casal que no Brasil ainda sem a lei do divórcio, se amavam, mas tinham casado anteriormente com outro parceiro e outra parceira. A Revista do Rádio de 16 de outubro de 1954 trouxe uma reportagem retratando Carmen e Mirabeau como um casal feliz dedicado à filha recém-nascida. O apartamento é descrito como o ideal da felicidade, com mesa florida, muita luz e fraldinhas penduradas. No entanto, esses dois momentos retratados acima são de uma paz passageira. Da mesma forma que alternavam momentos de compreensão, os dois entravam em choque de emoções, incompreensões e atitudes opostas. Há reportagem com Carmen declarando que não gostaria de ver a filha casada para que ela não sofresse o que a mãe sofreu. A vida continua para os dois com as pequenas alegrias de dividir uma casa. Carmen tinha um marido e um compositor dentro de casa. Mirabeau tinha uma mulher e uma intérprete. Você já tem o homem, Carmen! – disse Linda Batista. – Deixa o compositor pra gente! O compositor Carmen não se incomodou em dividir com ninguém. Mas… o homem? Dividir esse também? Mirabeau era casado com Sidnéia Duarte Pinheiro (com quem viveu até seus últimos anos de vida em Niterói), repartiu a vida com Carmen Costa durante quatro anos. Com o companheiro, Carmen teve a filha Silézia (registrada como filha legitima de Hans Van Koehler, quando ela volta aos Estados Unidos, em 1959). Houve alguns encontros entre Carmen e Sidnéia, encontros não muito cordiais. Carmen fazia o papel da outra. Por que Carmen Costa e Mirabeau Pinheiro não ficaram juntos? Pergunta de difícil resposta. O mesmo mistério que faz alguém se apaixonar por alguém, também separa um do outro. Com Mirabeau, Carmen Costa fica marcada como a outra para o público. Mas, para quem se debruçar sobre o íntimo de Carmelita Madriaga, a descoberta é que essa mulher ficou marcada por um amor que podia ter sido completo, tropeçou no imponderável e caiu no vazio da separação. A velha e conhecida história da vida que podia ter sido e não foi eterno. Acima de tudo isso, ficou a parceria musical de Mirabeau Pinheiro e Carmen Costa. O primeiro grande sucesso de Mirabeau na voz de Carmen Costa foi “Cachaça” (1952). Carmen introduziu a música com um pequeno esquete de gênero humorístico em parceria com o humorista Colé. Depois de cachaça vem: “Quase” (1954), “Tem nego bebo aí” (1955), “Jarro da saudade” (1955). Havia anos em que Mirabeau Pinheiro e Carmen Costa emplacavam dois ou três sucessos seguidos.

 

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