Carta ao poeta (V): Canta, Bob!

“Te compreender é ida sem volta / Escuto o futuro ficando pra trás”, você cantava, Bob, na “íris rara” de sua voz, os versos musicais de seu parceiro, Bebé de Natércio. Cantava, canta e vai cantar, velho amigo, em outros bares e em outras noites, que os espaços infinitos são poucos para a voz tépida, terna e harmoniosa que os deuses do ritmo lhes deram como legado que define o estilo singular de uma vocação natural e de um talento rutilante.

Diz Guimarães Rosa, na fala cadenciada de Riobaldo, que as pessoas não morrem; as pessoas se encantam… No seu caso especial, querido Bob, o encantamento já traz, enraizada, a luz do canto, quer no samba da vida, quer nas elegias da morte.

Se você não pôde ser o craque da bola que tanto sonhou, teve, no entanto, em Marcelo, amigo de infância, o modelo decisivo de quem sabe tocar e acariciar a redonda nas pautas do gramado. Teve ainda, e, principalmente, a desenvoltura do canto, a sutileza melódica, o sigilo incomum das interpretações inesquecíveis de tantas composições do nosso cancioneiro popular. Marcelo sabia disso, pois onde você estivesse, encantando os ouvintes com coisas assim: “Se alguém perguntar por mim / diga fui por aí / levando um violão”, estava lá como fã de carteirinha.

Você teve e tem tantos fãs de carteirinha! Você sabe: eu sempre fui um deles. Fui, não: sou. Mais que comovido ficava, quando você, num gesto rotineiro de generosidade estética e de calor afetivo, anunciava, ao microfone do Bar de Baiano: “Para meu querido poeta, Hildeberto, “Lamento sertanejo”. Que orgulho eu tinha e tão grato eu ficava!

Em seu CD – “Iris rara” -, compareço com estas minguadas palavras que procuram refletir meu respeito e minha admiração pela singeleza e originalidade de suas interpretações: {…} romântica, sua voz é de um romantismo sem data, voz que perdura e permanece na memória musical, sobretudo daqueles que têm uma refinada sensibilidade. Cantando e interpretando as composições de seu repertório, seleciona suas peças com rigor, a partir do melhor que há na tradição da música popular brasileira, revelando-se, assim, de corpo inteiro, na força de uma voz própria, simples, afinada no ritmo, no tom, no timbre e na ternura que compartilha como poucos, no encontro amoroso dos ambientes boêmios e artísticos”.

Velho Bob, se vai o corpo – este “infeliz agregado de sangue e cal”, como diria o iluminado Augusto dos Anjos -, fica, todavia, a “íris rara” de sua voz, ecoando, para sempre, nos corações daqueles que o amavam. Sobretudo na saudade etílica de seus pares que apascentam o crepúsculo das tardes de sábado à sombra do deus Dionísio. Deus que abençoa a solidão de cada um de nós como abençoou a sua.

E, se existe céu e se no céu existe um bar, se no céu existe música, se no céu existe sábado, um sábado mágico, um sábado eterno, com certeza os santos boêmios e os anjos melódicos estão em festa para esperá-lo. Portanto, limpe a garganta e cante em paz, grande Bob! HBF.

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