AS ULTIMAS FRASES PODEM SER AS PRIMEIRAS A ENTRAR NA HISTÓRIA!
Pablo Neruda, o mais conhecido dos poetas chilenos, e para muitos o único conhecido, escreveu um livro de memórias cujo titulo ficou mais conhecido que
o próprio livro. O mesmo que acontece com o Eu do nosso Augusto dos Anjos. É somente o sujeito, sóbrio ou embriagado de vodka, preferido assim a não morrer de tédio, confessar que viveu, para o colega ao lado responder, mesmo sem nunca ter lido uma só frase do livro, que lembrou o Neruda.
Mas a verdade é que o sujeito, sentindo que está passando pelo tempo, e ele, o tempo, ficando cada vez mais o moço, e ele, o sujeito, mais velho, costuma às vezes perguntar se realmente está vivendo, ou se não tenha vivido todo esse tempo em vão. Tudo bem que viver, lembrando outro poeta, esse português, cantado em versos e provas, não se tendo a alma pequena, vale, sem discriminação, a pena. Agora, que vale a pena questionar esse viver, também vale.
Nunca me vi nem imaginei que os outros me vissem um dia, no último dos muitos dias que ainda terei pela frente, pois, os passados eu não conto, dizendo a minha última frase, e entrando para história pela frase derradeira que disse. Porém, se não fosse tão original, tipo de não admitir sequer cópia das próprias fotografias, bem que eu gostaria de deixar esta vida - e existe outra? - com a frase que fora deixada por Voltaire, o filósofo francês, que ao ser aconselhado pelo padre que renegasse o demônio, não vacilou: “Tudo bem, padre, esta não é uma boa hora para se fazer inimigos!”. Foi ou não genial? Voltando, com certeza, Voltaire não escolheria outra. Perfeita!
Mas a última frase do viajante deve sair sem a marca da frase-feita. Fica mais bonita. Mais natural Nada de epitáfios como “Aqui Jaz um amante do Jazz”; “Morreu de repente: era um repentista”, ou “Enfim duro: sofria de disfunção erétil”. Não valem frases assim. A última frase tem que sair acompanhada do último suspiro. Se depois de uma boa frase o viajante inventar de acrescentar alguns predicados ao sujeito que se despede, melou tudo, pois, sem tempo para inventar outra melhor, pode ficar certo que logo será esquecido.
Johann Wofgang Von Goethe, grande poeta, senão o maior da língua alemã, autor do mais famoso e muito citado e pouco lido Fausto - existem outros -, aquele do pacto com Mefisto, com medo da escuridão que os de mudança para outra cidade enfrentam pelo caminho, morreu pedindo mais luz. Há controvérsias, mas que ele pediu socorro a Luz, pediu. Uns dizem que pediu para deixá-la entrar – “Deixem entrar a luz!” -, outros, por sua vez, que perdido na escuridão do caminho, balbuciou “Luz! Luz! Luz!”. E nada mais disse. Porém, se perguntado, teria sido inútil. A luz apagou.
Uma morte sem uma grande frase. Muito pequena para tamanho do poeta e escritor. Na verdade, o que não afirmo, porque não posso provar, é que Goethe não estava nada preocupado com a conta da luz. Ora, se a próxima conta ficaria para os que vivos ficaram, por que pensar em economizar? “Saiam da frente e deixem a luz entrar! Luz, quero luz, sei que além das cortinas são palcos azuis!” Mesmo assim não foi uma saída fausta. Muito fraquinha.
Mas, entre as muitas últimas frases que conheço, sem morbidez, uma entrou na minha história para nunca mais sair. Embora usada e abusada e muitas vezes estuprada em nome de uma liberdade de papel, a frase da Madame Roland não rolou pela ladeira do tempo em direção ao esquecimento: “Ó liberdade! Quanto crime se comete em teu nome!”. É bonita ou não é? Agora imaginem sendo ouvida e proferida em sua língua pátria - “O Liberté, que de crimes on commet en ton nom!” -, pouco minutos antes de ser guilhotinada. Pois é. São frases assim que valorizam o personagem. Pense na sua. A minha, assim como O Meu eu Jaguaribe e Eu, sem a pressa por um lugar no futuro, ainda está no prelo.
Uma frase final? Morri. Agora fiquem certos que vou mudar de vida