PARABÉNS AO DAPENHA PELOS 30 ANOS DE “TUDO X-CAÇAROLA”!
Não sou do tipo que descansa carregando pedras. Nos intervalos de uma leitura e outra descansa, todos os
dias, lendo ou vendo aquilo que sacia a fome desses olhos famintos de boas leituras. E, como não poderia deixar de ver, coisas boas que a nossa pressa em buscar um lugar no futuro não nos permite ver. Somente as olhamos. E como todos os que vêem sabem muito bem, olhar é muito diferente de ver.
Neste exato instante em que um pássaro preto - tenho uma janela aberta do meu lado – corta o espaço pela metade, tenho sobre a mesa de trabalho, aberto, o livro Tudo X-Caçarola, lançado no ano de 1980, pelo então jornalista, advogado e, agora, escritor, José da Penha Bezerra de Almeida, o Dapenha, editado – uma curiosidade nos tempos de hoje – pela gráfica GGS, que ficava bem ali, na Rua Duque de Caxias, 147, bem no centro da Província das Acácias.
O livrinho de crônicas, livrinho na forma carinhosa com a qual sempre o tratou o seu autor, com apenas 132 páginas, nunca foi esse livro que vocês acabaram de ler e de acreditar no que lera para o seu autor. As suas histórias podem até ser consideradas, assim como acabei de escrever livrinho, simples historiazinhas de quem não tinha o que fazer e, por isso mesmo, para não ficar fazendo nada, resolveu escrevê-las e, não satisfeito, publicá-las num livro. Mas, acredite.
A história do livro, esse que agora está de folhas abertas, braços que esperam o abraço desses olhos, hoje, um tanto cansado mas eternamente abertos para as coisas que acontecem fora deles, se contada em seus detalhes, verão que, talvez, seja tão ou mais interessante que as histórias nele contada. Afinal, Tudo X-Caçarola, o livro, é o resultado de uma doída e sentida, sempre, permuta: uma casa, único patrimônio que tinha, pelo livro que faltava para a famosa trilogia da árvore, filho e… livro.
Tudo X-Caçarola, expressão que virou marca registrada do autor, significa, para os muitos que desconhecem o seu significado, que tudo “está legal, tudo vai muito bem”, seria o primeiro de uma trilogia, que, já morando em Ji-Paraná, Rondônia, o filho do Compadre Heráclito e Dona Chiquinha, escreveria.
Tudo X… é um livro de crônicas. Os outros que viriam somente um pouquinho melhor vestido, também. Mas, se perguntarem ao seu autor, entre os três livros que escreveu, qual o nome daquele que lhe deu maior prazer de escrever, talvez mesmo por ter sido o filho primeiro, ainda hoje, apesar de gostar de todos, com o maior prazer ele responderá que foi o “Tudo X-Caçarola”.
Se eu fosse um crítico literário, o que não sou e nunca hei de querer sê-lo porque não quero nem qui-lo, diria que mesmo sem as devidas correções e uma linha que mantivesse o leitor do começo ao fim sabedor do que estava lendo ou leria (oleria?), é o Tudo X… que melhor apresenta o estilo e o autor, sem pregas nem regras gramáticas, sem medo e sem censura, em toda a sua vocação de cronista do cotidiano.
Não diria, ainda, que as exclusões aí definidas, as faltas de regras e de censura, seriam um defeito de quem nunca atentou para os perigos e armadilhas das frases escritas, porque ele, o autor, sempre escreveu sem a chamada “camisa de força gramatical”. Escreveu como fala e, sempre de ouvidos abertos, como o povo do qual nunca negou ter vindo ainda hoje fala também.
Diria ainda que no Tudo X… os desencontros ali percebidos são frutos mais da inocência do seu ator, da pureza do escritor, que mesmo do desconhecimento da língua, dos erros que mais tarde, sem quaisquer auxílios dos mestres da gramática, meio a floresta e rios, descobria em seu terraço
Ele, o Tudo X… continua aberto sobre a mesa de trabalho. E, sem nenhum trabalho, passo os olhos, vagarosamente, sobre as suas velhas e desbotadas páginas. As suas 132 páginas foram insuficientes para tudo o que o seu autor queria e gostaria de contar. Existem coisas dispensáveis, coisas que nele não cabiam, coisas que melhor estariam na sua condição de coisas fora dele.
Mas e daí? Fora justamente nessas coisas que estão ali, improvisadas, botões fora da casa, que o autor se mostrou aberto e disposto e dizer o porquê de haver escrito aquele livro. Lembro que convidado para fala
r um pouco a respeito do livro que ele acabara de cometer, na última página, distante de onde ele estava e ainda mais das coisas que ele espalhou no seu livro, com todos os próximos tecendo os maiores elogios, amigos e admiradores, eu dizia que ele, meio a tantos irmãos, fora o “único realmente contaminando pelo vírus arrasador do jornalismo”.
Hoje, 30 anos depois, acho que esse vírus, embora o renegue algumas vezes, cansado de tudo, como costumo escrever, mas nunca cansado de mim, também me pegou. Acho. Escrever, hoje, pode ter a certeza, é a minha foram de gritar. E se escrevendo não grito, vou acabar morrendo asfixiado com as palavras que me fecham a garganta.
Três décadas depois, releio as mal-traçadas escritas, pouco depois de sua partida, onde dizia, sobre o autor que acabava de aportar em Ji-paraná, que junto a “Faculdade de Direito vinha as noites insones varadas ao sabor das músicas do Luiz Vieira… – naqueles tempos até que eu gostava dele, isto é, do Luiz Vieira –“. E que os velhos seresteiros atendessem ao apelo do poeta baiano, todos eles. Que poetas, seresteiros e namorados corressem. Estava próxima sua – a do Dapenha – despedida das últimas noites de luar na Província das Acácias. E aí lembrava sua luta para conciliar o direito público, um direito que sempre defendeu na pessoa que ele representava, e o direito privado de tocar e cantar acompanhado pelo seu violão.
Agora, 30 anos depois, me flagro cheio de saudades, passando as páginas do Tudo X… e lembrando, para não morrer de saudades, as primeiras mal-traçadas escritas, a guisa (não gosto da expressão, nunca gostei) de prefácio, publicadas na última página. Um pósfácio. Seria melhor assim. Falando do autor de Tudo X- Caçarola, Recados da Província e Parede de Memória.
Passo as suas páginas e, no final, me convenço de que o vírus da escrita, feliz ou infelizmente, também me pegou. Mas fazer o quê? Se deixar de escrever um dia morrerei engasgado com as palavras que não foram escritas?
Parabéns ao Dapenha pelos trinta anos de Tudo-X Caçarola.

