de repente o improviso: o pedido de joão de lima e o perdão de chico de assis

manhã de quinta-feira. pássaros cantam no meu terraço. um bom prenúncio.  a rosa dorme coberta de  pétalas. fechada em pétalas.  espero ser esta quinta-feira melhor que esses dias cheios de medo do corona, e este mb cheio e meio de quase tudo.  mania. aperto o dedo no botão luminoso  e o passeio pelo espaço internético. passo.  passo a passo descubro então essa “raridade”.  assim que está escrito: “raridade”.  a chamada é pífia: “o violeiro joão de lima foi ao sbt pedir perdão ao violeiro chico de assis. mas disfarcei e fui em frente. acho que valeu a pena. tanto que deixei para lá a pífia chamada.

 são dois bons cantadores e duas vozes maravilhosas. nenhuma dúvida.  chico de assis e joão de lima. fazia um bom tempo que não me deparava com tanta arte em poucas cordas. ou seria em muitas?!  mas nem foi preciso dar mais cordas para eles. são bons e muito.  constatei em seguida.  rimas  pouco comuns na arte da improvisação. sonoras. harmônicas. bons mesmo. nada de rimas  “ricas”. eles não precisam. a própria arte é uma riqueza.

 o encontro não foi improvisado. acredito e vocês também. o ar de um é o de quem espera a chegada do outro.  no entanto, se fosse não mudaria a minha boa impressão a respeito da dupla. vozes naturais de cantadores de viola. bonitas. claras. fortes. um fato: são dois bons cantadores de viola. a impostação das vozes é feita nas notas certas. sobretudo nos finais das estrofes. note-se que nenhum aproveitou a mesma rima do companheiro. rimas soantes. toantes. sobretudo “tocantes”. nos tocam. 

antes mesmo de começar uma frase a rima da frase seguinte eles tem na cabeça. tudo certinho. difícil encontrar nos tempos de hoje cantadores com esse domínio de voz e facilidade no encontro das rimas. não bastasse sintam o dedilhar maravilhoso de suas violas. o pontear. o som típico dos mais autênticos cantadores. os dois são bons e muito. e quem ganha com isso é o ouvinte.

sei que o sílvio santos não tem a mínima consciência da categoria desses cantadores. ele não está acostumado com o som da viola. o tilintar das moedas e  o passar dos dedos vorazes macio das notas em real e sonhos.  esses ele conhece muito bem.  foi a “boa” história da “briga” e o pedido do “perdão” que levaram os dois bons cantadores a esse espaço que nada tem a ver nem ouvir nem tocar com eles. o som da viola ? vale muito pouco no “vale quanto” do homem do baú.

 em síntese: o importante foi agradar o seu público crente de que basta jogar e acreditar que é possível ficar rico da noite para o dia sem a necessidade de roubar de madrugada. a telesena. essa é mais importante que o show de cantoria e o som das  violas afinadas e ponteando como nunca antes visto nesse espaço televisivo. lembrei o poeta manuel bandeira que na condição de “juiz” numa competição de violeiros nordestinos, saiu de bandinha com essa beleza de constatação:

…saí dali convencido 

que não sou poeta não; 

que poeta é quem inventa 

em boa improvisação, 

como faz dimas batista 

e otacílio, seu irmão; 

como faz qualquer violeiro 

bom cantador do sertão”

 

em tempo: um belo reconhecimento da arte do cantador. fosse eu cantador, vindo de quem veio, sentir-me-ia (epa!) eternamente agradecido e orgulhoso. uma coisa, porém, o poeta sabia: era poeta e dos bons. negar o poeta foi um improviso de… repente.

 

 

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