Coisas que eu não sei

Coisas que eu não sei

Muitas coisas não sei.  Sei que as coisas que não sei são muito mais que as coisas que sei.  Digo que sei, mas não tenho certeza.  Na verdade, não sei se sei. Na verdade, não sei se não sei. Sei que não sei quase nada, e quanto mais aumenta meus anos de vida, curiosamente cada ano a menos, como diz o poeta, o baú das coisas que não sei vai aumentando assustadoramente seu insólito e estapafúrdio acervo.

Sou meio socrático; meio, porque sou meio nietzschiano: se admito certa razoabilidade no “só sei que nada sei”, algo em mim detesta a razão e os podres poderes dela derivados. Mas, insisto: – muitas coisas não sei.

Não sei, por exemplo, quem sou, de onde vim, para onde vou. Não sei se há sangue árabe, africano, europeu ou indígena no vetusto clã dos Barbosa conluiado com os Germanos e dos Costas jungido aos Gomes, a partir dos quais se forjou esta raça meio louca que cristaliza meu dna, sobretudo no que concerne ao mistério dos ritmos atávicos e das fraturas vocabulares. Não, não sei exatamente de que fibra tosca, real ou imaginária, relativa ou absoluta, é tecida esta história de família. Família, coração oposto ao mundo, é verdade, como diz outro poeta.

Não sei o que é poesia, qual a sua origem, qual a sua finalidade, como é a sua forma, a sua fórmula, sua substância, enfim, seu ser, sua ontologia. Quando digo poesia, quero dizer todo tipo de arte e, em certo sentido, todo tipo de linguagem. Se é que a poesia é mesmo um tipo de linguagem. Eu não sei. Eu não sei.

Não sei se o mundo tem começo, se tem fim; se o universo é côncavo, redondo, reto ou vazio. Não sei se o homem é eterno, se seu enredo é trágico ou cômico, se sua fome – seja lá do que for – pode ser saciada. Não sei se isto é passado, presente ou futuro. Não sei se existe mesmo o tempo ou se tudo é uma enorme e estúpida eternidade. E o espaço, com sua giratória, translúcida e exata metanóia existe mesmo? Não sei. Assim como não sei, na lógica eclética da mais abrangente geografia, se estou no lugar mais perto, no lugar mais longe, ou se meu lugar é nenhum lugar, todos os lugares, enfim, um lugar intermédio, que não é este nem aquele, nem isto nem aquilo, isto é, e como aquele outro poeta, apenas a ponte infalível do tédio que vai de mim para o outro.

Não sei se Homero existiu de fato; se Shakespeare foi mesmo Shakespeare; se Santo Agostinho viu em Adeodato um anjo sob as bênçãos do Senhor; se Montaigne só amou completamente a Etienne de La Boetie, ou se “Guerra e Paz” é, com certeza, o maior romance do mundo. O que é o maior romance do mundo? Não sei. Assim como não sei qual o melhor filme, qual o quadro mais belo, qual a música mais suave, qual o monumento mais perfeito. A propósito, outra coisa que não sei: o que é a perfeição. Também não sei o que é a beleza, muito menos a liberdade.

A vida: faz sessenta anos que vivo e dela nada sei. Não sei quem a comanda; se eu, meus instintos ou minha consciência, meus afetos ou meus interesses, minhas ambições ou minha indiferença, meus amores ou meus ódios; enfim, se sou eu, este eu fragmentado e polimorfo, uno e transformável, ou se um deus que não conheço ou que me habita com as gotas secretas de sua divindade, ou um demônio multiplicado e hostil que me visita todas as noites pelo país infernal das insônias e dos pesadelos. Não sei. Não sei o que é a vida e muito menos o que é a morte.

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