Dalva de Oliveira

Dom Cardoso
Dalva de Oliveira II – a “Rainha do Rádio” no ano de 1951

Rainha do Rádio foi um concurso criado pela Associação Brasileira de Rádio para arrecadar fundos para a construção de um hospital. As cédulas de votação vinham na Revista do Rádio e a primeira premiação ocorreu no ano de 1937, no Iate Laranjeiras, um barco carnavalesco ancorado na Esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro. Linda Batista foi a campeã e reteve o título por onze anos, até que foram realizadas novas votações.
A eleição de 1949 marcou uma das maiores rivalidades da história da MPB: Marlene e Emilinha Borba. Marlene foi procurada pela Antarctica que estava lançando o guaraná caçulinha. Para promover a marca, a empresa lhe deu um cheque em branco para que ela comprasse quantas revistas e votos fossem necessários. Marlene foi eleita com 529.982 votos. Emilinha era uma candidata forte, mas ficou em terceiro lugar, depois de Ademilde Fonseca.
Marlene manteve o título em 1950, entregando-o no ano seguinte para Dalva de Oliveira. Emilinha o venceria apenas em 1953. Nesse ano, a Revista do Rádio passou a fazer eleições estaduais. Alguns estados passaram a ter seus próprios reis e rainhas. No Rio de Janeiro, o primeiro cantor a ser eleito Rei do Rádio foi Francisco Carlos, em 1958. O rádio de São Paulo realizou o concurso apenas uma vez, em 1953. Isaura Garcia foi a eleita.
O espetacular sucesso de Dalva de Oliveira, em 1950, só poderia levá-la a um caminho: a Rádio Nacional; apesar de todos os problemas conjugais, os filhos internados em um internato por ordens da Justiça, e a constante boataria sobre sua vida pecaminosa, cheia de amores proibidos. A cantora, mesmo amedrontada com os poderosos fãs clubes de Emilinha Borba e Marlene, que faziam da Rádio Nacional seu ponto de encontro, mas a Rádio Nacional iria lançar todo o seu poder de fogo para eleger Dalva de Oliveira a Rainha do Rádio de 1951.
Dalva, a Rainha do Rádio de 1951, “Vitória sensacional – Marilena Alves em segundo e Carmélia em terceiro, as princesas! – foi assim que decorreu a apuração final – Dalva chorava e seus filhos também – Quem não chorou!” “Que o amor é, simplesmente, o ridículo da vida”. Este verso inesquecível está no belíssimo samba ‘Bom dia’, que depois foi regravado em bolero por Dalva de Oliveira no ano de 1968. De autoria dos compositores Herivelto Martins e Aldo Cabral, o tema é mais uma vez a separação e a reação passional beirando o desespero do amante abandonado. A letra é carregada de expressões dramáticas e teatrais que ajudam a reforçar a interpretação não menos intensa de Dalva de Oliveira.
Dalva de Oliveira foi sempre uma mulher sensível, delicada, frágil mas ao mesmo tempo muito forte. Embora muito dependente do marido Herivelto Martins, mesmo com o desenlace matrimonial, Dalva continuava amando-o até o fim da sua vida. Entre os dois havia paixões e ódio, cada um ao seu modo na tentava destruir o outro.
Dalva era uma mulher vibrante, batalhadora e moderna demais para sua época, enquanto Herivelto Martins ainda se apegava à falsa moralidade de que o homem podia fazer de tudo sem manchar o nome, mas qualquer coisa maculava o “sexo frágil”. Ele era apenas fruto dos preconceitos do seu tempo. Sem falar, que o sucesso de Dalva pesava sobre o seu machismo. Ela era a grande diva do “Trio de Ouro”. Um casamento não poderia sobreviver a tamanho descompasso.
Dalva logo perceberia que seu casamento com Herivelto nunca seria um conto de fadas. O autor de “Caminhemos” era inveterado boêmio, e fez dos bares e botequins da Praça Tiradentes e adjacências seu reduto. Todas as noites, ele comparecia ao local, onde, em frente ao Teatro Carlos Gomes, ficava batendo papo com outros compositores e cantores. Só voltava para casa a altas horas.
Herivelto continuou a aprontar: manteve o gosto pela boêmia e acentuou suas escapadas amorosas e transformou seu apartamento, depois dos shows do Trio de Ouro, no Cassino da Urca, em um ponto de encontro de amigos, ocasião que discutiam os destinos da Música Popular Brasileira, tomavam muita cerveja e comiam o macarrão preparado por Dalva – uma Dalva exausta, com sono e ainda de vestido longo, maquiagem, cabelos penteados.
Dalva não era ingênua: sabia dos namoricos de Herivelto, mas suportava a frieza do marido e a presença daquela turma de famintos e sedentos na sua casa àquela hora. Seu comportamento, contudo, era estranho: quase sempre ela nada dizia. Não reclamava. Nada cobrava do marido. Uma passividade que o próprio filho Pery Ribeiro e os amigos mais íntimos não sabiam explicar.
Às vezes, porém, ela explodia e a discussão entre os dois descambava para a troca de sopapos. Não foram poucas as ocasiões em que Herivelto, cego de ódio, agrediu violentamente a mulher – e Dalva enfurecida, rachou –lhe a cabeça com uma vassourada ou um cinzeiro de bronze. A verdade é que o clima entre Dalva e Herivelto azedava a cada dia. Entre uma briga e outra, havia sempre um período de paz que, em vista da rotina da casa, era apenas o prelúdio de uma nova e mais violenta desavença.
Herivelto Martins era um grande compositor que desfrutava uma grande influência no meio artístico junto às gravadoras e às emissoras de rádio. Nesse embate passional Dalva sempre levou a pior. Porém, ela gozava de um grande prestígio da comunidade gay, essa comunidade tinha muita influência no meio artístico. Foi decisivo que Dalva saísse do limbo de dificuldades em face do entrevero com Herivelto Martins. Nesse ínterim, sua carreira musical continua numa crescente.
Dalva de Oliveira, a essa altura, já podia viver como estrela; compra uma mansão espetacular em Jacarepaguá, com o quintal abarrotado de animais, alguns exóticos (araras, papagaios, macacos), onde ela recebia seus amigos mais chegados com suculentas macarronadas e apetitosas feijoadas, tudo saboreado à beira de sua piscina. Dalva fez uma curta temporada em Londres, ocasião em que cantou acompanhada da orquestra de Roberto Inglês, na festa de coação da Rainha Elizabeth II. Nos estúdios da Parlophone, Dalva gravou um LP no qual recriou clássicos brasileiros como ‘Tico-tico no fubá’, de Zequinha de Abreu, e ‘Aquarela do Brasil’ e ‘Na baixa do sapateiro’, de Ary Barroso.
Além de tudo, mesmo sendo Dalva uma grande amante, jamais se prostituiu, detentora de grandes interpretações de suas inquietações, frustações e ousadias, feito marcante somente visto em grandes mulheres. Grande Otelo, grande amigo de Dalva de Oliveira, afirmou certa vez que Dalva cantava com o útero e não com a garganta, ela imprimia todos os recursos da voz que possuía para cantar o amor e as paixões exasperadas.
Seu filho Pery Ribeiro, quando escreveu um livro intitulado ‘Minhas duas estrelas’, faz a seguinte afirmativa: “na verdade, minha mãe tomou para si as dores dos amores desfeitos, as amarguras das despedidas”. E continua Pery: “minha mãe foi uma mulher fora do seu tempo”.

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