De que cor é mesmo minha faixa na luta pela vida?

De que cor é mesmo minha faixa na luta pela vida?

 

Por Anco Márcio – em 21/05/2010 às 00h00

Luto desde que nasci. Para nascer tive de fazer força, pois ainda não havia o parto cesariano.Depois com cinco dias fui levado numa Maria Fumaça daqui para Ingá do Bacamarte.Nem esperaram que eu me recuperasse do susto de ter passado seis horas sem chorar no ato de nascer de minha mãe.

Em Ingá do Bacamarte sofri visita de cangaceiros, sofri cheias de rios, sofri fortes chuvas caudalosas, vi gente morrendo de fome e todo dia estudava pela manhã e à tarde naquele afã que eu tinha de aprender a ler e escrever. Ainda em Ingá frequentei festas de Pavilhões multicoloridos que me cansavam a beleza.

Depois a volta de Ingá para João Pessoa na boleia de um caminhão, com a troçada toda em cima, e nós da família na boleia numa viagem que durou quase dez horas. Cheguei e fui para a escola logo no dia seguinte.Parece que queriam fazer de mim um gênio e quase conseguiram.

Depois o Exame de Admissão, o Liceu, as provas orais com Dona Daura, um verdadeiro martírio, equações, inequações, logaritmos, linhas retas e curvas o inferno matemático que caía sobre minha cabeça. Venci e entrei no Ginásio como o menino mais moço, com apenas dez anos.

Cismei de fazer teatro aos catorze, fiz testes e mais testes, o papel na mão tremendo, mas a segurança quando entrava em cena, o papel bem interpretado seguro, ali pra ninguém botar defeito. Fui artista de teatro pelos palcos dessa cidade hoje quase mergulhada num lixão.

Depois o Rio de Janeiro que já era lindo, uma prisão no primeiro dia, por estar sem documentos, o engano desfeito, a volta pra casa sem documentos, e eu pensando o caminho todo que iam me executar e me jogar no Guandu. Mas não.Me deixaram inteiro em casa com a promessa de não sair sem documentos.

Depois as luzes da TV, luz, câmera ação, bebida, muita bebida, mulheres, muitas mulheres e vida parecendo uma ilusória festa e eu mergulhado de cabeça em toda essa doideira, e de repente despedido da TV, a ida pra Curitiba a vida no meio dos galegos, a primeira experiência de casamento com a doce Hannah.

A volta para João Pessoa. Passaram Marias e Clarices sobre minha vida, Bambu, Hawai, Rufino, quase coma alcoólica, a paz, um novo casamento, os filhos, primeiro Davi, depois Débora, os meninos crescendo e eu trabalhando sem tempo para ver meus meninos tão queridos.Sexo sem drogas e rock.

O tempo passando, os meninos crescendo, Davi mexendo em computadores, Débora dançando balé, fazendo mil e uma artes até que veio Gabriel meu neto, até agora único, meus meninos do teatro, as montagens, as noites indormidas de preocupação.

De que cor é mesmo minha faixa na luta pela vida?

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