Depois de aposentado, ele se pergunta: E agora, José ?
josué josé da silva

Depois de aposentado, ele se pergunta: E agora, José ?

Ele faz questão dizer que não acabou o “seu casamento” com a empresa.   Essa será uma “separação de corpos”. Apenas. A “Sentença” será batida ainda este ano. Espera. Os amigos não. Aposentou-se há três anos, mas continuou trabalhando. No entanto, volta a dizer, seu “casamento com empresa” não se acabou. Separar-se-á dela, mas continuará casado.

Ele é o tipo que se entrega de corpo e alma ao trabalho.  Seu primeiro emprego foi no Bradesco. Faz tempo. Amador Aguiar era o “mito” como empresário.  Ao sair, livre e espontaneamente, para trabalhar na empresa de onde estará em breve “separado”, conta feliz que recebeu do próprio uma “Carta de Recomendação.”  Volta a falar na despedida. Sente como se fosse deixar nessa empresa um pedaço seu.

- Vai, sim! Ela vai continuar comigo!

Diz emocionado.

Os olhos? Não tem aquela história de que eles – os olhos – são o reflexo da alma? Pois é. Percebe-se: sua alma chora.  Agora fala emocionado dos pais que se foram. Levanta os olhos para o céu. É evangélico convicto. Porém diz gostar da “religião católica”. Acha a Senhora de Fátima a “coisa mais linda”!

Acredita como poucos em outra vida nada parecida com a que levamos agora. Essa será melhor.  Muito.  Mas nunca o ouvi dizer que lá onde acredita estão  os seus pais, tem um  lugar garantido. Espera esse  merecer –  diz.  

Os pais.

A mãe é potiguara, da cidade de Nova Cruz, e o pai um campinense que por toda a vida trabalhou na Marinha. Não era   marinheiro.  Timoneiro. Acha. Era um “negócio assim”. Acha que ele trabalhava nisso.  Faz o movimento com as mãos como se estivesse dirigido algo. Um navio. Por aí.

 Mas, afinal, por que resolveu parar de trabalhar aos 65 anos , idade essa que fará no mês de dezembro, numa fase reconhecidamente produtiva? Simples: está cansado.  Muito cansado. Acrescentou  esse “muito” aí.  Além do cansaço natural, diz que deseja viver mais um pouco consigo e com a família.  Disso está convicto:

 - Não aguento mais seis meses! E,  se muito em breve, daqui a 30 dias – no máximo! -, não me deixarem ir embora, acabo fazendo uma besteira!

 Mas não fará. Apesar de pouco visível para muitos, ele, essa excelente pessoa, é um ser de muito bom-senso.

 E a família?

A esposa se chama Nadira. Mas nada a ver – e contar – com aquela personagem dos Power Rangers.  Também não pensem ser um nome bíblico como são os de seus dois filhos.  Não o é.   Esses foram batizados com os nomes de Eber, de 38 anos, músico de formação e integrante da Orquestra Sinfônica da Parahyba; e Eliebe – o nome significa “Deus é pai” -, o mais novo, 31 anos, que assim como muitos jovens se realiza no “campo da informática”.

 Diz-se um homem realizado.  Uma realização por se dar satisfeito com o pouco que tem. Não precisa de “muito” para ser feliz. Uma conquista – depender cada vez mais de menos – que é o desejo de muitos.  Mas vai – a realização continua como meta – continuar aperfeiçoando a pessoa singular que é.

 Sem querer, mas querendo, procuro saber mais sobre os seus pais.  “Mamãe se foi recentemente. Voltou à morada do Pai”.  E o pai? “Ah, esse faz tempo”.  Diz guardar ótimas lembranças dele.  E a mãe? Olha mais uma vez para o alto. Era uma pessoa muito doce. De uma doçura que só as mães tem.  O nome dela?  Azenate.  Essa que ,assim como os dois filhos, ressalta mais uma vez, tinha um nome bíblico. Azenate foi a esposa de José, o rei do Egito, mãe de Manassés e Efraim.

 Nessa altura desse papo mais comigo que com ele, se me pedisse para citar alguém que conseguiu dar certo como ser humano nesse mundo de meu Deus, eu o citaria.   O conheço há décadas. Nunca o ouvi falando mal de um colega. De pessoa alguma. Mesmo daquele que colega seu – dele – nunca foi.

 Sem dúvidas, digo agora, tudo a ver com este Malabarista de palavras.  Os poucos que me conhecem, mesmo que não sejam perguntados, responderão que estou certo quando assim me defino: um sujeito que não fala mal dos próximos nem dos distantes.

 Tem um jeito – faz questão de exaltar com um esforçado vigor – assim de uma “pessoa tola”.  Mas, sorrindo, diz que assim engana muitos. Nada de tolo ele tem.  Continua sorrindo. Um sorriso tímido.  Não gargalha. Nunca gargalhou.  Acho.  Tem a minha anuência. Nada de “pessoa tola”. Tanto que, enquanto muitos ainda pensam em “viver” trabalhando até aos 75 ou mais anos, aos 65 ele jogou a toalha. Não derrotado, mas como um vencedor.

 Soube, um saber que não acontece nem acontecerá com muitos, o momento certo de parar. Os prejuízos com o ato?  Nem aí. Viver apenas com a parca aposentadoria do INSS?  Viverá.   Ressalta alheio aos sensíveis prejuízos, a qualidade de vida que terá. Saberá transformar o “pouco” no muito dessa nova vida que gozará.

 Cansado. Insiste em dizer. Sente que o corpo estar a pedir descanso. Não quer, faz questão de dizer, que a morte lhe arrebate em pleno labor trabalhista. Tem exemplos. Há pouco um colega de trabalho foi surpreendido pela “indesejada das gentes”.

Viver: esse é o seu objetivo. Mas nada de “ter vergonha de ser feliz.”. Isso ele não leva em consideração. Viver e saber que amanhã não irá dizer, assim como muitos, que “era feliz e não sabia”. É feliz. Saúde e paz ele tem.  E agradece ao seu – meu também – Deus por isso.  Acordar, abrir os olhos e deixar que a luz do sol por eles – os olhos – seja saudado é um bem que na terra não existe outro com o qual se possa comparar.

 E agora, José?!  Lembrou o poema. Qual? Aquele… daquele poeta… Como é mesmo o nome dele? Socorro-lhe. Ele nunca foi afeito a poetas e escritores: Carlos Drummond de Andrade.  Esse é o poeta.  Livros? Conhece muito bem a bíblia. É o seu livro de cabeceira. Outros? Não é um leitor.

- E agora, Jose?!

Pergunta-se.  Afinal, foi batizado como o nome de Josué José da Silva E agora, José? Os olhos se enchem de lágrimas. Finjo não perceber.  Será uma pessoa mais feliz ainda. Digo-lhe mais: se algumas pessoas merecem ser felizes nesta terra de meu Deus, ele, por ser a pessoa boa que sempre foi, com certeza será um desses felizardos.

Vai embora, repete, mas levará consigo muitas histórias e amizades por aqui conquistadas. Inimigos? Não tem. Ah, disso também tenho certeza. Um sujeito como ele não pode nem deve ter inimigos.

Muitos, talvez, diz sem muita convicção, tem inveja dele. Pode ser. Endosso. A gente só inveja quem a gente deseja ser, digo-lhe. Ele sorri. Nesse sorriso lembro a sua parecença com o ator que fazia o papel do “Menino da Bombril”.  Carlos Alberto Bonetti Moreno. Esse é o nome dele. 

– Lá vai o “Garoto da Bombril!”.

Não ligava. O garoto propaganda da Bombril não era ele. Josué Jose da silva. Esse como faz questão de dizer, o JJS, será sempre ele. Que vá em paz.  Seja feliz. Tenho a certeza que mesmo com tantas brincadeiras, zombaria também, muitas, zombarias, infelizmente, esse é o desejo de todos que conheceram o filho de Azenate.

Seja feliz.

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Um comentário

  1. Parabéns Humberto,
    Pelo que você escreveu, Josué, é uma pessoa muito boa, só fez amigos na CAGEPA. Soube circular nos corredores sem ser atropelado nem atropelar ninguém.
    Parabéns também a Josué que continue sendo feliz na vida de aposentado.
    Aqui fica o meu abraço e respeito a decisão que ele próprio tomou.

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