Documentário conta a vida desregrada de Carlos Imperial

Documentário conta a vida desregrada de Carlos Imperial

GAIATICE O personagem faz pose sexy. Ele namorou muitas mulheres, às vezes ao mesmo tempo, e foi pivô de várias controvérsias  (Foto: acervo Denilson Monteiro)

A cena inicial de Eu sou Carlos Imperial, documentário lançado recentemente no festival É Tudo Verdade, funciona como um cartão de visita do personagem. Mostra uma sequência da chanchada Banana mecânica (1974), em que o doutor Ferrão é perseguido por uma legião de mulheres fogosas na praia. O filme, paródia de Laranja mecânica, produção de Stanley Kubrick que havia sido proibida no Brasil, tinha três das características que marcaram a carreira de Imperial: irreverência, oportunismo e impacto. Sutileza não era o forte de Imperial (1935-1992), um sujeito corpulento (pesava mais de 100 quilos), centralizador e polemista que tinha como principal virtude – além de criar polêmicas – a aptidão para farejar talentos artísticos e apontar tendências que tempos depois varreriam o showbiz. Como o personagem de Robert Louis Stevenson, Imperial tinha, assim, seu lado médico e seu lado monstro. Um Imperial criava polêmicas de mau gosto e cultivava fama de devasso. O outro era uma antena que captava tendências do mundo artístico e identificava promessas.

Entre as décadas de 1960 e 1980, a sombra rechonchuda de Imperial se projetou por várias áreas. Ele foi produtor, compositor, ator, diretor, roteirista e colunista, com atuação na TV, cinema, teatro e impressos. Foi decisivo para catapultar a carreira de Roberto Carlos, Wilson Simonal, Elis Regina, Tim Maia e Erasmo Carlos. Apesar de todos esses itens no currículo, talvez sua marca para a posteridade tenha sido a maneira despudorada com que levou a vida. “Ele colecionava histórias impagáveis”, diz Denilson Monteiro, autor de Dez, nota dez! Eu sou Carlos Imperial, biografia que acaba de ser reeditada. Denilson é corroteirista do documentário, ao lado de Renato Terra e Ricardo Calil, dupla que acumula também a direção.

Normalmente arredio a aparições, Roberto Carlos dá um depoimento generoso sobre Imperial. Na segunda metade dos anos 1950, o cantor tentava dar os primeiros passos na carreira. Foi Imperial quem de certa forma o adotou – tanto que o Rei o chamava de “pai”. Primeiro, deu oportunidade a Roberto de se exibir no Clube do rock, programa de TV apresentado por Imperial. Seguro de que estava diante de uma pepita rara, ele usou sua influência para abrir a porta das gravadoras àquele que se tornaria o artista mais popular do país. Foi graças ao contato de Imperial que Roberto gravou seu primeiro compacto simples, com duas faixas compostas pelo “tutor”. Na verdade, ambos lucravam. “O Imperial queria pegar um cantor que gravasse suas músicas”, conta Paulo Cesar de Araújo, autor da biografia Roberto Carlos em detalhes.

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Sim, ele foi também compositor. E de muito sucesso. Nos anos 1960, escreveu várias canções amplamente conhecidas: “Vem quente que estou fervendo”, “A praça”, “Nem vem que não tem” e “Mamãe passou açúcar em mim”, estes dois últimos sucessos na voz de Simonal. Na maior cara de pau, Imperial às vezes omitia o nome do parceiro no registro da obra. Também botava seu jamegão em músicas que eram de domínio público, como foi o caso de “Meu limão, meu limoeiro”, outro arrasaquarteirão de Simonal.

Imperial exercia sua criatividade para o bem e o mal. Ele era um emérito empacotador de conceitos e ideias. Figura midiática, chegou a abraçar a política. Ao se candidatar a vereador, em 1982, fez uma campanha hilariante, baseada no bordão “Vai dar zebra”. Estava sempre acompanhado das “lebres”, como eram chamadas suas chacretes. Obteve mais de 40 mil votos e se elegeu com facilidade.

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O documentário esclarece um dos episódios dos mais tenebrosos que envolveram o personagem. Na primeira metade da década de 1970, Imperial adaptou para o cinema a peça Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá. Como protagonista, escolheu um jovem candidato a galã, Mário Gomes. Pouco depois, com o estouro do ator na novela Duas vidas, decidiu lançar o filme, com algumas alterações. Pegando carona na androginia, fenômeno em voga no mundo dos espetáculos, trocou o nome para O sexo das bonecas. Para divulgar a atração, mandou confeccionar cartazes em que Mário Gomes aparecia afeminado. Naturalmente, o astro ficou bravo e conseguiu que a Justiça proibisse a exposição da imagem. Como vingança, Imperial plantou num jornal uma nota segundo a qual o ator teria dado entrada num hospital, depois de sofrer um acidente com uma cenoura. Foi o bastante para o boato se espalhar pelo país – imagine isso numa era pré-internet – e pôr em risco o futuro do galã.

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