Dona Berta para as pedaladas  fiscalizadas ou não (Orlando Guerra)

Dona Berta para as pedaladas fiscalizadas ou não (Orlando Guerra)

Não sou economista. Se vocês não sabem que fiquem sabendo agora. E se não sabiam, agora sabendo fica tudo esclarecido. Pausa. Por que começo assim estas mal-traçadas? Porque, sem querer, mas sendo quase obrigado a querer por Dona Berta, a minha vizinha do lado, tenho que lhe explicar o que danado vem a ser essa tal “pedalada” que está botando em nossa “simpática” presidente, como botaram um dia no mestre Alfredo.

Dona Berta, mulher curiosa da gota serena, uma suricata da saia, aquele bichinho que muitos só viram pela televisão de cabeça sempre erguida e dando voltas de quase 180 graus, disse para este “Malabarista de Palavras” que não é economista, como vocês estão sabendo agora, que não vai entender nunca por que uma pessoa é tirada da presidência de um país apenas porque deu umas pedaladas sem fiscalização de olhos curiosos para manter a forma.

Em princípio – acreditem- tinha decidido que não iria perder o meu tempo, esse que é pouco e costumo usar somente quando tenho realmente necessidade dele, para tentar – não passaria nem passa de uma vã tentativa – explicar o que sabia que Dona Aberta não iria entender nunca. Mesmo que passassem em sua frente cem bicicletas e eu lhe mostrasse que sem os pedais elas – as bicicletas – não sairiam do lugar, ela não entenderia.

Mesmo assim, educado como sempre fiz questão de ser, uma das heranças – a vergonha foi a primeira – que o meu pai me deixou, segui em frente. Não era como Dona Berta estava pensando. Uma pedalada comum. Não seria essa que levaria a presidente Dilma a entrar no programa “A minha casa – a presidência – é a minha vida”.

– Quer dizer que essa pedalada não é de bicicleta?

Perguntou com os olhos maiores – forçou um pouco – que os de Peter Lorre sem forçar nada. Não tem nada a ver com bicicleta?

Perguntava. Repetia. Parecia o refrão de um samba cantado sem graça por um  Netinho desafinado que não sei o quê, achando que um sorriso sem graça afinaria o seu desafinado cantar.

Não Dona Berta, a pedalada que está causando tanto barulho e dor de cabeça em Dilma – principalmente, – e Lula e demais companheiros é outra. Essa uma pedalada chamada “Fiscal”. Pedalada fiscal. Entendeu?

Ela me olhou com aquele olhar de quem acabara de ouvir alguém falar!Xóõ (não me perguntem, por favor, como se pronuncia, esse é um caso para o poliglota Evandro Nóbrega). Como mesmo? Uma língua? Como? !Xóõ. Assim mesmo. Uma língua falada por menos de cinco mil pessoas em Botsuana e Namíbia.

“Pedalada fiscal”? Foi isso que o senhor disse?!

Foi.

Olhou-me mais uma vê no fundo dos olhos, e continuou com o rosto na janela.

Nesse momento, o filho do outro vizinho também do lado, esse do lado direito, Marcos Polo, acabava de passar na bicicleta que ganhou de presente do pai no último natal. Voltou a olhar-me nos olhos. Essa ela conhecia muito bem. Sabia, assim me dissera depois, que uma dessas bicicletas jamais seria capaz de derrubar uma presidente. Nem faltando freio.

Voltou a olhar para a rua. O rosto na janela. Dali não tirava nem por mil pedaladas. Com ou sem fiscalização.

((Um texto de Orlando Guerra))

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