É que às vezes falta um pedaço de mim…

É que às vezes falta um pedaço de mim…

Ela acabou de entrar em minha sala. Sala minha não. Nossa. Não tenho sala. Salas. Não tenho. Tenho casa. Uma. Apenas.  Enorme. E essa eu carrego dentro de mim cheia de histórias.

É amiga de longas datas. Muito trabalho.  Velha amiga.  Jovem-velha amiga que ainda hoje joga no meu time. Veste a minha camisa. Ou quando necessário, sem camisa joga. O Trabalho Futebol Clube. Esse que agora, final do segundo tempo, anda me cansando.

Agora, cansada de tudo, menos da vida, desabafa: “Realmente… Tenho saudades de mim!”. Entendo. Sabia. Estava no limite. O seu. Dissera-me outro dia: “Acho que vou estourar!”. Também achava. Mas para o seu bem em especial e dos amigos, não “estourou”.

Está com saudades dela. A frase lembrou-me outra.  Essa do amigo/irmão e parceiro Gil de Rosa: “É que às vezes me invade uma falta de mim…”. Sabia. Era isso que ele estava sentindo: falta dela! Só não sabia em que lugar do passado ficara. Incompleta. Faltava-lhe um pedaço!

  Não pensou em Chico, Ah, ó pedaço de mim. Dela.  Pedaço arrancado de mim. Dela. Conhece o Chico.  Escuta o Chico. Não tanto quanto as coisas do Vinícius de Moraes. Essas musicadas pelo parceiro inseparável Toquinho.

Afinal, perguntou-me com aquele ar de quem não desejar uma resposta sincera ouvir, o que estaria fazendo com que ela dela sentisse saudades? Sentisse falta? É… Esse “é” reticente nada teve a ver com a resposta que não recebeu.  Não queria receber.  Não lhe respondi.

Não sei realmente o que dela ficou no passado e que agora sente uma falta sem tamanho. Desse pedaço arrancado dela. Nada dele eu sei. Desse pedaço. Ela? Se soubesse, com certeza iria buscá-lo.

 Agora, após muito relutar, decidiu dar uma volta por aí. “Vou andar por aí!”. Sorri. Seria à procura do que não perdeu? Ou tentando esquecer o que não deseja lembrar? Ou deseja?  Não respondeu. Pensei. Apenas.

Olha mais uma vez para mim. Fixa o olhar.  O olhar é distante. Não escuta o que pensei no parágrafo anterior. Impossível. Mas responde ao não escutado com um “sei lá!” que demonstra que tudo está sabendo. Sentindo. Sei lá!

 Sai da sala como se nunca nela tivesse entrado. Não entrou mesmo.  Fora outra quem entrara nesse exato instante. Outra. Uma pessoa incompleta. Uma pessoa faltando um pedaço.

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