E QUEM FOI QUE DISSE QUE NÃO ME QUERO NEM ME AMO ?!
nesse caso o buraco é mais profundo...

E QUEM FOI QUE DISSE QUE NÃO ME QUERO NEM ME AMO ?!

Uma confissão: nunca fui o tipo do sujeito “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor”. Afinal, eu vivo de bem com a vida e comigo mesmo. Tenho quase dois metros de altura e o baixo astral não me alcança. Nunca brigaria com a Marina, aquela do Caymmi, para depois de pedir desculpas “ficar de mal” com ela.

Os meus lamentos, sem esse S, sempre guardei comigo. E se esses de outros forem não quero ouvi-los.Ora, se dividiram as suas alegrias com outrem (gostei!), que dividam também a tristeza! Em síntese: não me venham com um “estou mal” por que o “meu bem” vai estar de férias.

Pelo menos um dos meus dois leitores sabem. Sou um musicomaníaco – se é que isso existe – daqueles que escutam uma música duas, três, cinco e até dez vezes.  Mas um daqueles que enchem os ouvidos de notas sem dó até cair em si.

Sou ainda capaz de despedaçar – quando existem – todos os pontos, vírgulas e reticências da letra de uma canção.  Agora, uma composição sobre a “morte lenta” do sentimento e com esses cortes profundos nos versos, nunca me pegou bem.

Antonio Maria e Fernando Lobo, por exemplo, são dois putos – e botem putos nisso! – compositores. Estão entre os melhores da nossa rica MPB. Porém, e ai porém, como diria o Paulinho da Viola, apesar de saber que muitos gostam e não estão nem aí para o gosto meu, resolveram deixar as fraturas expostas da dor na história deles do “ninguém me ama, ninguém me quer”. Não gostei.

Nunca me vi cantando, por exemplo, uma coisa como “A vida passa, e eu sem ninguém /E quem me abraça não me quer bem/Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso. E hoje descrente de tudo me resta o cansaço/ Cansaço da vida/cansaço de mim/ Velhice chegando e eu chegando ao fim.” Putaquelosparis! Esses estavam na “petição de miséria”! Precisavam urgentemente de um tratamento de choque!

No entanto, com todo o respeito aos bons compositores que eles são, os seus versos soam nos meus ouvidos mais falsos que as promessas dos nossos candidatos a cargos eletivos. Não acredito mesmo que uma pessoa de bom senso, estando boa de corpo e alma, escreva nesse astral do tamanho do Nelson Ned.

Uma letra assim, volto a repetir, não pega bem. Não me faz sentir o peito faltando ar nem me leva aquele estado de levitação em que muitos apaixonados acabam, mesmo se trocar de roupa, indo morar. É dor demais para que um sujeito que esteja apaixonado ou não possa aceitar e dividir com eles essa dor. Repito: não suporto esse tipo de letra Ela me lembra a monotonia dos finais de tarde de um dia de domingo.

A dor extremada e a alegria exagerada sempre soam falsas. Ninguém é totalmente infeliz, nem também alegre como um passarinho tomando banho em um dia de sol. E aquela história de que a felicidade fez morada no peito e de lá nunca mais se mudou é ingenuidade. Encostar a cabeça pesada no travesseiro e dizer que é o sujeito mais infeliz do mundo é burrice. Nem tanto nem tão pouco, diria a Dona Chiquinha.

Ninguém me ama, ninguém me quer?  Nada disso: eu me amo e me quero! Fim de papo.

 

 

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