ele se despediu  como se estivesse apenas trocando de roupa para ir a um baile sem máscaras
um pouco desse irmão que muito de bom nos deixou por aqui...

ele se despediu como se estivesse apenas trocando de roupa para ir a um baile sem máscaras

Parece que foi ontem. Ou num  mais distante anteontem. Por aí.  Era a última vez que o via  ainda morando nesta cidade e vestindo a mesma roupa que ainda visto. Estava assim meio perdido. Não sabia se ainda morava por aqui ou tinha se mudado e deixado por aqui a velha roupa.

 O olhar não estava mais aqui.  O dele.  Lembro-me bem. Era um olhar de quem estava descobrindo por onde deveria começar naquela nova cidade. Acho que me ouvia. Acho. Pois todas às vezes que eu falava com ele, baixinho para que  não perdesse a concentração, errasse o caminho para onde em breve deveria seguir os seus olhos, mais mortos que vivos, mudavam do lado em que eu não estava para o lado que logo depois  não mais estaria.  .

 – E aí, tudo bem?

Não sabia o que lhe perguntar. Ninguém sabe nessa hora. Sabia apenas que estava se despedindo. Tinha certeza. Mas que  naquela  sua característica maneira nordestina de ser não entregaria o jogo no primeiro tempo. Pausa.  Elstava no segundo. Porém, forte como sempre foi, esse nunca seria o seu – dele –  pensamento. Vai passar. Tudo passa. Dizia. Amanhã estaria mais uma vez num campo desses qualquer  “dando física” para quem quisesse.

Moleza! Sentia que  gostaria de me dizer essa palavra de que tanto gostava. Ah, isso é moleza! Não diria cheio de empáfia que morrer era a coisa mais simples do mundo. Sim. Morrer. Nunca diria “trocar de roupa e se mudar para outra cidade”. A cidade dele não era essa.  A nossa. Algo assim como se acreditasse que o reino dele também não era desse mundo. O meu? Não tenho reino. Não quero reino. Não penso em reino outro que não seja um por mim inventado.

Ele inventara o dele. Os irmãos disso sabiam. Há muito. O seu reino se resumia a um “campo de futebol” e os passeios costumeiros em sua bicicleta pelas ruas do nosso bairro Jaguaribe. Hoje a bicicleta que era dele, amiga e companheira, se encontra  com os seus – dela – pedais parados na parede da minha ilha cercada de livros e discos e filmes por todos os lados. Andou o que tinha de andar. Sem ele essa  bicicleta não existe. Uma peça apenas. Uma peça fixa e sem graça numa parede branca.

Naquele dia senti que o seu olhar era mesmo de despedida. Olhou para as poucas pessoas que estavam ao seu redor e  guardou o olhar. Não vira tudo neste mundo.  Um mundo de muitos, mas que tinha pouco do mundo dele. Muito pouco. Papo com os  amigos? Quase nenhum.  Ele era os amigos. O papo era somente dele. E como falava!

 Teatro, cinema, literatura… Teatro? Nunca assistiu a uma peça de teatro. Não gostava da palavra. Teatro… Não gosto de palhaçada! Diria mesmo que a peça fosse um drama. Um dramalhão. Nem me lembro do dia de sua despedida, mas lembro-me dele quase todos os dias.

 Lembro mesmo que as suas últimas palavras foram na terceira pessoa. Ele estava indo embora.. Repetiu. Mas nesse “estar indo embora” , pela segunda vez, fez questão de deixar claro quem estava indo embora e para onde:

- João Heráclito tá indo embora!  Vai encontrar o compadre Heráclito e dona Chiquinha…

 Suas últimas palavras.  Estava tudo  consumado. O meu irmão voltava ao pó de onde viera. Despedia-se. Estava no lugar reservado aos que iriam embarcar naquela hora.  Iria juntar o seu pó ao pó de seus pais. Senti.  Despedia-se  como se dissesse simplesmente “vou à esquina para ver se lá  me encontro”.  Não se encontraria.  Era assim como se dissesse “Não estou gostando muito do frio que estou sentido.  Vou  pegar um pouquinho de sol e volto depois”.

 Se doeu? Acho que mais em mim do que nele. Nem precisou de lenço para acenar na despedida nem para enxugar uma possível lágrima que lhe caísse dos olhos.  Nada de drama. A vida é uma comédia. Sabia. Foi assim que João Heráclito, o mais puro dos irmãos, trocou de roupa e se mudou para outra cidade.

Que saudade da gota serena!

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