em sua nova cidade ela caminhará por toda a vida… eterna!

em sua nova cidade ela caminhará por toda a vida… eterna!

Sexta-feira é dia de novidades. Essas talvez mesmo pelo fato de ser uma sexta-feira deveriam ser boas. Todas.  Hoje, porém, não foi assim. Senti. Nos olhos e fala do amigo que chegava sentia que uma novidade boa e nova – assim costumo brincar: “novidade nova” – não iria receber. Não recebi.

 Ele chegava apenas para dizer que estava preparando a “despedida” da irmã mais velha. Pausa. Uma  “velha” aos quarenta e poucos anos. Calei. A irmã, a bela e doce irmã, como assim dela ele costumava falar, estava na iminência de trocar de roupa e se mudar para outra cidade.

Nesses momentos, mesmo sabendo que a “indesejada das gentes” assim sempre continuará por todas as vidas nossas, INDESEJADA, pois a sua – dela – vida   é eterna, fico sem palavra e multiplico o meu silêncio. Esse, porém,  assim como acontece comigo  quando estou com esses que eu gosto, foi um silêncio compartilhado, solidário e dorido. Mesmo sabendo que o silêncio não dói, nunca, pois nele cabe tudo, inclusive uma notícia de despedida, esse doeu um pouco mais fundo, bem ali onde nenhum som de palavra pode chegar.

 Ela, a irmã do amigo, ainda estava no meio da caminhada. Está (va) com pouco mais de quarenta anos de ensaio e muito de vida ainda para viver.  Triste, confesso. Essa sexta-feira chegou para derrubar todas as suas – do amigo – esperanças. Em casa ela se encontra,disse, afinal tanto faz estar morando nas nuvens ou no terceiro andar, esse de onde poderá cair a qualquer momento.

Os gestos – deles – eram nervosos. Não estranhei. Acho que esses também seriam os meus. Embora lembrando que na mudança do meu irmão João Heráclito os meus gestos eram de quem se despedia de um amigo que se mudava, mas que em breve daqui também se mudaria para ser vizinho seu, nessa cidade que muitos temem por desconhecê-la e outros partem apelando para que realmente exista.

 O amigo chegara com a irmã. Um sustentava-se no outro para suportar melhor a partida. Confesso que senti. Sou o tipo que aprendeu a dividir a dor dos amigos tentando fazê-la, assim dividida, que neles essa dor doa menos.   Um dia ele me confessou que depois da mudança de sua mãe, mudou muito.  Agora, uma  despedida dessas, fosse de mais um da família ou fora dessa não lhe doeria tanto. Aprendera.  Se não foi destruído nesse dia, tornara-se mais forte

 Saiu da sala escondendo o rosto. Os olhos em especial. Não queria que esses –  as janelas da alma –  denunciassem o seu sofrer. Não precisava.  Uma dor assim, mesmo sabendo que um dia todos sentiremos, uns mais outros menos, a dor da despedida, não se revela apena por essas janelas. Revela-se por todo o corpo. E merece todo o nosso respeito.  Não deveria ter vergonha de mostrar-se despreparado para esse tipo de despedida.  Muitos não estão. Eu ? Espero que no dia que essa “indesejada” bater na minha porta eu não esteja em casa. Não sei. confesso que não sei. 

 Que  a irmã do amigo  se acostume logo com a  sua – dela – nova cidade. Essa onde esse mal nunca vai existir e ela poderá caminhar, como infelizmente  não aconteceu por aqui,  ´por toda uma vida eterna.

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Um comentário

  1. waldemar josé solha

    Escrever, ainda mais do que falar, desabafa. Daí que Freud adotou esse tal de botar pra fora o que nos incomoda e nos dói como método de cura.

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