ESSE LIMITADO E VIOLENTO MUNDO DA TELEVISÃO PROVINCIANA!

ESSE LIMITADO E VIOLENTO MUNDO DA TELEVISÃO PROVINCIANA!

Um dia chamaram a televisão de “máquina de fazer doido”. O Stanislaw Ponte Preta. Mas uma boa sacada dele.  Sacadas geniais foram sua marca. Sempre tinha a palavra certa para definir o que os olhos vêem e a memória não raras vezes busca no momento uma comparação e não encontra. Ando cheio dessa máquina. Tão bela quanto limitada, ele me castra a visão. Medo de ficar louco? Nem um pouco. Nunca fui louco para estar preso a essa máquina.

Tudo a mesma coisa. Os mesmos apresentadores com cara de anteontem. Desculpem a minha falha. De um passado distante. Todos velhos e as histórias que eles contam, sem esse S, velhas como a saudade que me acompanha dos dias que eu preocupado em viver não vivi. Eu gosto do meu televisor. São quase 50 polegadas. É quase um cinema no meu quarto. Eu disse quase. E notem ainda que eu disse “eu gosto do meu televisor. Amar é outra coisa. Não o amo.

A voz desse dublê de apresentador e repórter policial que se arvora a defensor dos dores alheias todos os dias, logo nas primeiras horas da manhã, gordo como um barril de vinho no nono mês de gestação ferem os meus ouvidos. Não sabe ele que nessa hora a dor é minha e com ele não divido. Ah, como são ruins os homens e mulheres – sem discriminação – que aparecem e fazem a televisão da minha terra! Insuportáveis!

O jornal das sete é sempre policial. Uma rima. Jornal x Policial. Apenas. Solução, porém, nem pensar. Numa parede de reboco, encostado, está um homem somente sangue. Um cadáver. A história?Desempregado, para não morrer de fome, morreu enforcado. Uma menina de 12 anos é estuprada três vezes pelo padrasto. Não questionei o número de vezes, nem escrevo que ficou viciada. Nem pensar. Sou puto com qualquer tipo de violência. É nesse horário, hora do almoço, que esses pratos são servidos. Se não bastasse, alguns ficam para o jantar. Durma-se com uma chacina dessas!

Outro dia, aqui neste mesmo espaço, falei naquela apresentadora de um dos nossos muitos jornais e do seu eterno sorriso nos lábios. É a única expressão que tem. Se atriz fosse seria o nosso Van Damme de saia, aquele que tem apenas duas expressões: uma quando está careca, outra cabeluda. Seria uma sorrindo e a outra com os lábios pequenos fechados.

O tom do noticiário?! O mesmo para toda e qualquer notícia. Outro dia, ouvindo-a apenas, pois o seu virar de cabeça deixa-me tonto, um sorriso para cada virada e cada virada que não vale um sorriso, monótona como uma música – qualquer uma – do John Cage, contida, tom de quem falava com medo de quebrar a tristeza dos presentes, pensei tratar-se de um velório. Imaginei, então, as carpideiras aguardando as câmeras para valorizar o seu trabalho. Ó Ledo Ivo engano: era uma festa de aniversário!

Eu gosto do meu televisor. Da televisão, por enquanto, essa feita por aqui, mantenho a distância. Assim sigo por aí pescando noticias em outras fontes e assistindo por esse lado, o de fora, o que a televisão não mostra.

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