Esse silêncio que me faz dele repórter…

Esse silêncio que me faz dele repórter…

# - Tudo é silêncio. Até agora pouco ou quase nada ele disse com o silêncio que se espalha na tela. O deserto. Tudo cronometrado: cinco minutos. Argélia. O deserto é lá. A Rosa silencia. Ela pega a história no comecinho, mas, inteligente, se concentra na história que  David conta: um cego recupera a visão aos 40 anos.   Lembrei o meu cunhando Zé que perdeu a visão depois de servir ao exército. Um susto. Dizem. Nunca acreditei. Mas foi. Ratificam.

# - A história de David é interessante. Depois de 40 anos o cego viu o mundo e se decepcionou com ele. A sua sujeira. A solução encontrada por ele foi o suicídio. David também tem muito desse cego. Pausa. Ontem foi uma sessão de arte. Profissão: repórter. Uma obra-prima. Bacana a penúltima cena. Nessa, o silêncio, apesar do triste final, é poético. Maravilha.

 # – Não aguento mais a insistência de muitos em negar que a eleição passou. Primeiro e segundo turnos. Os palanques ainda estão armados e gritam desaforos como se isso fosse mudar o resultado da eleição. Não muda. Passou. Pobres de espírito! Pausa. Não me permito ler nem falar sobre o passado. Esse. Apenas. O meu eu gosto muito. Somente não gosta de lembrar o seu passado, quem tem vergonha dele.  Não tenho. O passado, se não precisa ser esquecido, merece ser aperfeiçoado. Melhorado. Um saco.

 # - Assisto ao jornal daqui (TV Cabo Branco) com a sensação de que já vi. Dejá vu. Pessoas são assaltadas e falam de sua impotência. As mesmas e velhas matérias. As mesmas perguntas e respostas.  O mesmo cenário e quase as mesmas pessoas. Falo para a Rosa que muito em breve todos terão a segurança de um trinta oito na cintura ou na bolsa.  Ela sorri. Também.

 # -  A última vez que estive com o finado ex-jogador Esquerdinha em sua granja, ali no Conjunto Geisel, visita essa que fiz com o meu bom irmão Paulo, ele estava distante como um Garrincha que via a sua – dele –  ilusão entrar em campo com o estádio vazio. Aquela ilusão da balada do Alberto Luiz.  Lembro. Ele estava mais deprimido que melancólico.

# – Falou-nos de seus  encontros com estrelas brasileiras na Europa, e com os europeus diante dessas estrelas. Não falara muito. É verdade. Era como se não quisesse lembrar dos tempos em que era uma das “estrelas brasileiras” na Europa. Se tivesse que escolher um lugar para morar, confessara, viver, não teria dúvidas: Portugal.

# -  Nem lhe perguntei por que antes e com todas as condições para ali ficar morando, onde por muito tempo ali morou e jogou e foi admirado, não ficou.  Falava em Portugal como se o paraíso fosse ali. O bíblico e o imaginado pelos homens. Agora, quem sabe, num paraíso verdadeiro, pois, se esse existir, acredito que mereça, nem de Portugal deve lembrar.

 # -  A arquitetura belíssima e ousada de Antoni Gaudí ficou na minha cabeça. Como ?! Ainda o filme do Antonioni . A penúltima cena. O cachorro passando de um lado para outro; crianças; um velho sentado numa cadeira, longe, quase a perder de vista; o policial “consolando” a estudante de arquitetura; o silêncio.  Pausa. Carros passando sem fazer barulho. A polícia chegando e o silêncio se fazendo ainda maior. –

- “Sou tímido e espalhafatoso/Torre traçada por Gaudí”.

Por tabela, assistindo ao “Repórter”, lembrei a “Vaca Profana “do Caetano Veloso.

Cai o pano. Fim do exercício dos dedos malabaristas. Um exercício. Apenas.

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