Estante  de sentimentos: o Campinho da Vila

Estante de sentimentos: o Campinho da Vila

Manhã de terça-feira setembrina. Volto ao meu bairro Jaguaribe. Melhor: nunca ao meu bairro voltei. Sempre estive nele. Com ele. Somos um. Carrego muito de sua história na minha.

Agora estou Campinho da Vila dos Motoristas. Nasci ali.  Campinho da Vila ou do Abc ou de Abel. Lembro-me. Abel era – agora deve estar morando noutra cidade e vestindo uma roupa diferente da minha. –  filho de Venelipe e irmão de Eva e adão. Sorrio com o cacófato.

Abel também era irmão de Zorobabel. Desconfiava ser Zorobabel um apelido. O nome é feio demais para ser próprio. Pensava.   Depois descobri que Zorobabel foi designado governador de Jerusalém. Designado. Mas não me perguntem por quem.  Costumo espalhar as minhas mal-traçadas sem consultar o doutor Google, o Freud do nosso tempo. Por isso não saberia responder.

 O Campinho da Vila “tinha como muro” o muro da Escola Industrial. Ainda. Somente mais tarde passaria ser técnica.  Escola Técnica. Hoje tem um nome comprido e feio. Não é mais escola.  Universidade.

As tardes eram nossas. Éramos o que costumavam chamar de “esfria sol”. As nossas peladas começava normalmente – eu disse normalmente? – a uma hora. Não dizíamos treze. Nunca. O Sol não jogava em nossos times. A favor. 

O melhor da festa era estreitar o olhar por um buraquinho no muro tamanho de nada para olhar o “lance” das meninas que alimentavam os nossos sonhos e desejos. Sainhas curtinhas e “sentadas à vontade” do outro lado do muro. Um prazer ? Muitos. 

Foi nesse campinho que assisti a antológicas peladas entre Cu de calango e Senado. Dois times de peladas que para nós meninos eram como se fossem o meu Flamengo e o Fluminense dos outros. Cu de calango x Senado era um clássico. O Campinho da Vila o  nosso Maracanã.

Não me lembro de crescido ter jogado em um deles. Acho que não. Os times eram de gente grande. Nem tanto no futebol. Tamanho. Idade. Fatores esses que hoje em times de verdade quase não se levam em consideração. É… acho que ainda peladei com eles.

Lembro-me vagamente de alguns craques como Zélio, Evandir – essa citado por muitos como o melhor -, Coca-Cola (famoso como profissional que se tornaria mais tarde), Toinho, Cidinho (esse também se tornaria profissional e jogaria em nosso Botafogo), Catita (depois, como profissional, Santos), Wellington, Damião e Zé Pequeno (goleiros) e outros não menos importantes como personagens históricos do Campinho da Vila.

Hoje no lugar do Campinho da Vila tem uma feira livre. Essa livre também da memória. Não guardo uma só lembrança dessa. Tá ali toda quarta-feira tomando todo o campo em que desfilei e vi desfilar os craques do Cu de calango e Senado.  Mas não me lembro dela. Passo por ali e a memória trava. Nem as traves que marcavam aquele campinho cheio de altos e baixos não sei com exatidão onde ficavam.

O Campinho da Vila agora é um campo somente solidão. E não adiantam os gritos de “agora no geral é um real”.  Fosse “na geral” talvez até me dissessem alguma coisa. Não dizem. Hoje o Campinho da Vila não passa de uma fotografia na parede da minha memória. Um gol contra. Sem dúvidas. E um gol contra será sempre um grito silencioso no campo da vida.

E como isso ainda me dói…

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Um comentário

  1. Lindo e nostálgico. Voltei no tempo, levado pelos minuciosos detalhes!

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