Estaria mais vivo se não estivesse ali naquele dia…

Estaria mais vivo se não estivesse ali naquele dia…

NÃO ERA UMA FESTA. Mas, em tempos outros, a descida de uma simples espumante num copo era o começo de uma. Lembro-me bem. E nada tinha daquela história que ele também não gosta do “eu era feliz e não sabia”. Sabíamos. A noite nem criança era. Um bebê. Passávamos por ela de mansinho. Era como se estivéssemos a roubar mangas no sitio da nossa infância, o sitio da “Tia” Zaíra, nas primeiras horas de uma manhã de domingo.

 Agora, ele do outro lado, separado por uma pequena cerca, sem quaisquer utilidades, pois o portão estava aberto, tudo olhava e lembrava, acredito, dos nossos bons tempos. Uma ou duas vezes acenou para nós. Aceno triste. Nem queria acreditar. Estava mais para um aceno de despedida. Aquele que se dá no momento em que nos separamos da pessoa amada, numa estação de trem, sentindo que talvez aquele seja o último dos muitos que já foram dados.

 Se eu contar que doeu como um espinho de maria-segunda entrando de primeira na pupila do olho, acreditem. Teve um momento – a ROSA percebeu –  em que evitei de olhar. Não queria vê-lo assim. Não quererei nunca. Nós que viajamos por tantas festas e fizemos viagens que somente festas foram, agora, numa das últimas curvas do caminho, sentimos que esses acenos poderiam ser os últimos ou muito próximos dos últimos estariam.

Ainda pensei em chamá-lo, mesmo sabendo que na sua condição o melhor seria deixá-lo nos acenos, apenas, sem espumante no copo e belas lembranças musicais. Isso mesmo: belas!   O bom gosto dessa arte nele fizera morada. Mas logo desisti.  Não teria nada daquela alegria que espalhamos pelo caminho. Isso mesmo: espalhamos boas sementes!  E mesmo que não mais saibamos em que caminhos elas brotaram, nos sentimos felizes em saber que muitos de suas árvores e frutos se beneficiarão.

Se me senti triste? Acreditem: ainda estou.

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