Estou no velório de Carlos, o Antão, esse que era um profundo conhecedor das coisas da vida!
A SUA SOMBRA HÁ DE FICAR AQUI...

Estou no velório de Carlos, o Antão, esse que era um profundo conhecedor das coisas da vida!

Estou nesse momento num local onde acredito que ninguém gostaria de estar. Nunca gostará. Não é cemitério. Não é hospital.  Também é  um lugar ruim. Estou no velório de um velho e bom amigo. Velho ou quase.  Mas o bom não é pelo fato de haver trocado de roupa e indo morar noutra cidade. Mas era de verdade um bom sujeito.

 Aqui, nesse momento, mais que nunca a efemeridade da vida me ataca. Tudo é passageiro!  Nada de brincadeira. Não aceito nesse momento essa historia que gosto tanto de brincar. Aquela do “até o trocador e o motorista”. Não aceito. Sou neste momento somente lembranças.  E todas boas.  Nenhuma pedra no caminho. Nem aquela poética…

A morte é feia. Horrível! Não me acostumei ainda com ela.  E não importa a hora nem o momento em que ela chega. Morrer é dar adeus para esta vida e, segundo uns mais crentes do que eu, viver outra eternamente. Não quero!  Viver eternamente depois dessa é moleza!  Difícil e ser eterno por aqui!  E Nada dessa historia de Academia de Letras ou outras que se arvoram a imortalizar os seus membros. Não quero ser imortal em Academias nem em vida outra.

 Agora, nesse exato momento, vejo a casca – a roupa – deixada pelo meu amigo Carlos Antão na sua despedida. Fosse um tronco seco de árvore não seria tão triste. Mas, afinal, é um corpo onde a festa se fez e alegria respondia sempre presente. Agora não adianta dizer que Carlos foi um bom sujeito e excelente funcionário. Carlos não vai mais ouvir!  E se ouvir não nos dirá que ouviu. É silêncio. A morte é o silêncio total. É a ausência de tudo. A ausência de qualquer sinal de barulho. Silêncio total. Assim é a morte.

 Não gosto de guardar imagens de amigos imóveis. Sou mais cinema. Movimento. Seja o filme bom ou ruim. Movimento. E se possível com música ao fundo. Agora morando noutra cidade e vestindo uma roupa diferente da minha, da nossa, Carlos é somente lembrança. E as lembranças, vocês sabem, pouco a pouca a memória se encarrega de passar a borracha do tempo.

O meu velho e bom amigo Carlos Antão, se não virou história, na história da minha vida ele entrou. E como vivemos! E como brincamos! E como sorrimos da vida! Éramos, costumo por aqui dizer, tipos que se a vida não quisesse brincar conosco, provocávamos a vida pegando na bunda dela!Viajamos muito! O seu violão não era bom, mas ele era tão bom que fazia o seu violão ser ouvido como se bom fosse também! Lembranças!

Carlos Antão gostava muitos dos animais. Era o tipo de passar horas ouvindo um pássaro livre a cantar no pátio da empresa em que trabalhava. Estava tão acostumado que me dizia, eu que não entendo muito de canto de pássaros, que o pássaro que estava cantando não era o mesmo da manhã passada.! Tinha a certeza! E danava-se a discorrer sobre os mais diferentes cantos de sabiás!

Senti. Confesso que senti. Eu na verdade, embora poucos saibam, sou um sentimental  apesar daquela nota desafinada da sífilis  que o poeta disse um dia que herdamos no sangue.  Tudo bem. Estou diante de  um corpo sem vida não tem nenhum valor. Eu sei. Todos sabem. Não passa de uma “casca” de alma. Mas… Nesse momento, acreditem, eu gostaria de acreditar em outra vida. Não para terminar de viver eternamente ali a vida minha, mas para me conformar com a certeza de que os irmãos e amigos nessa outra estariam vivendo felizes.

Nesse momento penso no quanto Carlos Antão poderia ter vivido mais e mais feliz ainda, se pudesse estar ao lado dos seus aos 70 anos. A sua idade na despedida. Não estava. Não tinha mais ambições. Mas sinto que em casa, vivendo apenas com uma pensão mínima, injusta, considerando o quanto contribuiu por quase 50 anos de trabalho, não poderia viver com a dignidade que merecia.Não quero aceitar. Mas São muitos asism como Carlos. Serão muitos ainda como ele. Viver sem a dignidade que merece, mesmo tendo por toda a vida lutado para conquistá-la, pagando para tê-la um dia, honestamente, Carlos não queria. Não merecia.

 Pois é. Nesse exato instante estou me despedindo de mais um amigo. Não é que com a sua partida a empresa em que trabalha ou o cidade em que viveu ficará mais pobre. Mas pobres, Carlos, ficarão os teus amigos sem a tua presença!  E que a terra não te leve das nossas memórias!  Enterrem-nas.!  Mas assim como aconteceu recentemente com outro irmão meu, seja essa tão leve que nem sintas que estás sob ela! 

Descansas em paz.

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