eu no espelho

eu no espelho

Por Anco Márcio – em 19/04/2010 às 04h44

Paro diante do espelho para fazer a barba branca que insiste em crescer. De repente, como nos filmes de ficção, acontece o milagre. Minha imagem é devolvida pela lâmina de vidro como no tempo em que eu tinha vinte anos. Rosto magro, barbudo, cabelos e barbas do mais puro negro.

Pela minha mente e pela fina lâmina do espelho o tempo volta. O Liceu e suas peladas, as fugas para ir ver as meninas fazendo ginástica de shorts curtos,os filmes do cine clube, as reuniões do grêmio, as primeiras tentativas de fazer sonetos, o acariciar suave da primeira namorada, cujo nome se perdeu no tempo.

Revejo-me nos carnavais, camisa colorida, cabelos brancos de talco, um tênis surrado e uma garrafa de rum debaixo do braço para arranjar mais alegria. Me lembro de repente daquela menina linda com quem brinquei o carnaval no Cabo Branco e que desapareceu para sempre, nunca mais a vi, com certeza perdeu-se nos becos e vielas da cidade.

Vejo-me no Ponto de Cem Réis, com seus velhos carros de aluguel, com seus vendedores ambulantes, com seu bonde do Comércio que andava ligeiro por sobre os trilhos. Me lembro dos banhos de mar em Tambaú na casa de minha tia e depois a alegre brechada na minha prima gostosa que ia tomar banho de água doce.

Lembro perfeitamente da carícia da mão de Norminha alisando com medo minhas partes pudendas, enquanto que eu alisava sua genitália, na minha primeira intimidade e depois a carreira pra zona, onde por vinte ou trinta cruzeiros se podia conseguir uma mulher de primeira sem doença.

Depois vem minha fase ruim. Muito álcool sendo atirado no corpo, uma vontade imensa de sumir, desaparecer, não voltar nunca mais praquela vida de bebedeira. Minha mãe dava conselhos e eu nem escutava.Enchia mais e mais o corpo e a mente de bebida cada vez mais forte.

Depois, meu casamento, a lua de mel, o primeiro filho, o coração parecendo querer estourar de alegria, anos felizes fazendo teatro ganhando prêmios, depois o nascimento de minha filha, loura de olhos verdes que já me deu um neto parecido, bem parecido com ela.

E de repente tudo some na minha frente e aparece o meu rosto aos sessenta e cinco anos, agora, a barba branca por fazer, as dores nas pernas, o braço com a cicatriz… Mas foi boa essa volta ao passado que o tempo proporcionou.Eu nunca havia visto a mim próprio quando jovem.

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