Faz 15 anos que Livardo Alves não mora mais aqui…
livardo alves em foto deste malabarista de palavras

Faz 15 anos que Livardo Alves não mora mais aqui…

Não éramos pequenos. Éramos grandes. Não faz tanto tempo assim. Vivíamos  sintonizados com o mundo lá fora e esse que carregamos dentro do peito. Hoje, porém, morando ainda por aqui, graças a Deus, ele veste uma roupa diferente da minha e mora noutra cidade.

Naquele dia, 16 de março de 2002, fora convidado para lhe visitar. Recusei. A desculpa? Não queria ver o meu amigo nos seus estertores. Dias antes, ainda dono de si mas próximo da “indesejada das gentes”, estive com ele. Sentia-o ainda dono do humor que o diferenciava de muitos. Brincava com o mal. Mas olhava-me com olhos de despedida. 

Lembrei que dias antes, no Ponto de Cem Réis, centro da capital da Parahyba, seu “escritório”, esse em que marcava todas as tardes encontro com ele mesmo, pedira-me um “remédio” para diminuir a dor que sentia. “Tá insuportável, 1berto!”.  Era a primeira – e única – vez que ouvi dele uma reclamação. Essa, porém, saiu mais como um apelo.  Um pedido de quem sendo vencido pela dor.

O aconselhei – logo eu que não sou de dar nem receber conselho, pois recebendo esse vão pensar que estava precisando – a ir para casa. No meio dos seus, pensei, a dor será dividida. Pesa menos. Dói menos. Não adiantou. Respondeu entre gemidos que essa dor teria que suportar sozinho Mais: mesmo estando entre os seus, mais fácil seria dividir alegria.

Assim meio sem jeito, não repeti o conselho. Ora, eu que sempre encontrava – e encontro – um jeito para quase tudo, não sabia o que dizer naquele momento ao meu amigo de noitadas e canções. A despedida estava próxima.  Sentia. Nesse dia a impotência tomou conta dos meus atos e pensamentos. Não sabia o que pensava.  Nem o que fazer.

Meses antes, dia 11 de setembro, de 2001, sem nada me dizer, vez que nunca antes falara para esse Malabarista de palavras sobre o mal que carregava, pois era bom demais para nesse mal falar, a próstata sendo “comida” aos poucos por essa doença cujo nome muitos não ousavam dizer, o câncer, “caranguejo” por todos temido, crescendo desordenadamente para todos os lados, lamentava a tragédia americana:

- “Parece um filme, 1berto! Não estou ainda acreditando! Tudo ao vivo! Acontecendo nesse exato momento”!

Agora esquecido o “filme do terror” americano, mesmo morando em outra cidade, esse filme deve ter ficado na sua – de Livardo – memória.  O filme dele, porém, esse também trágico para aqueles que conheceram o artista e o homem, ambos dignos, ainda passa cena por cena na tela da minha memória.

 Volto, pois, àquele dia em que fora convidado para lhe fazer uma visita e recusei. Não fui. Repito. Não queria ver o meu amigo assim. Triste. Muito triste. Não era medo da “indesejada”. Mas o fato de estar deixando de morar nesta cidade que conhecia como poucos, e se não bastasse como poucos amava.

No dia 16 de março de 2002, aos 66 anos de vida e muitos carnavais, o amigo e compositor do meu bairro Jaguaribe trocava de roupa e se mudava para outra cidade. Livardo Alves da Costa, o filho de Antonio “Cacheado” e Dona Júlia, irmão dos artistas LUZARDO (chargista) e LEONADRO ALVES (cantor e compositor), foi brilhar em outros palcos, esses somente nuvens. Com Luzardo substituindo o bom Agápio Vieira em um novo “Mensageiros melódicos”, trio musical que entrou para a história da Rádio Tabajara e dela nunca mais sairá, Livardo continuará brilhando pelo resto dessa vida que muitos acreditam ser eterna.

Saudades do meu amigo Livardo Alves! Uma das mais dignas e honradas pessoas que conheci!

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