Folha Corrida: os antecedentes poéticos de Sérgio de Castro Pinto

Folha Corrida: os antecedentes poéticos de Sérgio de Castro Pinto

Depois de uns dias longe de mim e deste espaço Plural, cuidando e pensando no filho que se encontra em franca recuperação, uma doença do século, ele tem, volto para este que singularmente representa muito para mim.

 Um bom tempo. Meses. Isso: acho. Meses.  Hoje, colhendo alguns pedaços meus que pelo caminho ficaram , numa temporada de caça à vida, estou voltando como se daqui nunca tivesse partido.

 Assim, voltando ao começo, os dedos malabaristas não estavam nem aí. O que pintasse, eles, esses dedos, como malabares usariam. Nada de estranho. Não estranhem. Assim é a minha escrita. Sempre foi e será.

 Nunca fui de ficar com a boca escancarada e cheia de dentes, sorrisos abertos, sem a vontade que eles merecem. Falar o quê?! Muito eu teria. Muito eu ainda – creio – terei.  Mas dessa vez não foi difícil encontrar motivo para espalhar os dedos sobre as teclas desse puta computador: a “Folha Corrida” do poeta Sérgio de Castro Pinto.

 Fazia tempo que não espalhava os olhos sobre os poemas desse parahybano que – segundo alguns – só não é mais cantado em versos – também poderia ser em prosa, muito bom também, – como deveria ser cantado neste verde-amarelo, esse hoje nada parecido com aquele outro que um dia fora dos caras-pintadas, porque é parahybano.

 Mas não acho tanto assim. Para mim não existe essa história de poeta da Parahyba, da Oropa, França ou Bahia. Poeta é poeta em qualquer lugar do mundo. A língua da poesia é universal.  Tem mais: Sérgio de Castro Pinto, assim como os verdadeiros poetas, é um poeta do mundo.

 Depois de tanto tempo lendo os poemas de Sergio de Castro Pinto, descubro alguns que entrariam – entram! – em qualquer antologia poética verde-amarela, sem pedir licença. Nem a poética.  Mais direto?  Tudo bem: em qualquer antologia daqui e d’além mar.

 Fui mais leitor de poemas. Muito mais. Raro era o dia em que não fazia esse dia melhor com a leitura de um Mario Quintana – meu poeta e creio ser também o poeta desse poetaço –, João Cabral de Melo Neto ou Carlos Drummond de Andrade. Agora, talvez mesmo querendo recuperar esse “tempo de poesia” perdido, uma busca desse tempo perdido, estou lendo Sérgio de Castro Pinto.

 Não sei qual de seus admiradores e estudiosos que disse ser Sérgio capaz de tirar poesia de qualquer coisa viva ou morta. Entre tantas considerações positivas sobre o poeta, confesso que seria isso mesmo que diria, mesmo se perguntando não fosse: Sérgio é um poeta capaz tirar poesia de qualquer coisa, sem deixar que essa coisa se torne feia por ter sido dela a poesia tirada.

 Mas poeta é diferente. Ser poeta é diferente. Ele tira a poesia sem fazer barulho nem deixar o lugar ou coisa de onde a poesia tirou, sentindo a sua falta. Cores! Isso que eu vejo e sinto na poesia de Sérgio de Castro. Pinto: cores e vida!

 Mas se tudo isso não bastasse para que Sérgio fosse esse poeta raro, eu que muitas vezes me arvoro a dizer que não passo de um simples “Malabarista de palavras”, lendo os seus – dele – poemas, aprendo a manejar as palavras como malabares mais ainda! Sérgio faz dos versos Malabares. A sua intimidade com o poema/poesia faz dele um Mestre nesse campo! Malabarista de poesia! Uma beleza!

 A poesia de Sergio de Castro Pinto faz bem!

 

Poemas de Sérgio de Castro Pinto

 
       o bode

o que escrever sobre o bode?

compor-lhe uma ode?

dizer que os seus chifres
despontam na testa
como duas raízes
brotando da terra?

que é irmão siamês
dos seixos, da poeira,
das pedras?

que é duro na queda?

que o bode é ante de tudo um forte?

ou que, quando bale,
é todo ternura,
torrão de açúcar
desmanchando-se em candura?

 

 

as cigarras

 

        são guitarras trágicas.

plugam-se/se/se/se
nas árvores
em dós sustenidos.

kipling recitam a plenos pulmões.

gargarejam
vidros
moídos.

o cristal dos verões.

 

 

        atos falhos

 

        sequer os ensaio.

mas os meus atos
falhos
encenam-se assim:

eles já no palco
e eu ainda
no camarim.

 

 

viventes municipais

 

        macaxeira

 

um jeito de quem monta
o mundo em pelo.

um jeito de quem usa esporas
sobre as mil rodas
que trafegam nos seus nervos.

um jeito rural
de quem liberta os cavalos
do carro que deseja ser.

um jeito de quem pisa fundo
desrespeitando os semáforos do mundo

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