HISTÓRIAS DA ZONA (anco márcio)
a mais famosa rua dos cabarés pessoenses

HISTÓRIAS DA ZONA (anco márcio)

Por Anco Márcio – em 09/12/2009 às 00h00

A Zona era somente um jeito amigo de chamar. Na verdade, o nome completo mesmo era Zona do Baixo Meretrício, mas ficava cansativo demais pra gente dizer. Ficou como Zona mesmo e fim de papo.Ia todo mundo.Dos ilustres militares aos pobres estudantes, que passavam o mês juntando os trocados pra dar umazinha.

Uma vez no cabaré de Irene, eu avistei um Ministro que era daqui e só num digo o nome porque a parentada toda dele ainda está na cidade. Verdade que havia tratamento diferenciado. Pra essa gente granfina, as melhores mulheres, champangne, peru e etc. e ta. Mesmo que eles já fossem velhotes e só fizessem mesmo lamber. Mas pagavam bem e as mulheres gostavam.

No cabaré de Berta tudo era familiar. Desde “Tonha”, um garçom de dois metros que num gostava de ser chamado de “Tonho”, por ser mulher demais, até os freqüentadores, que éramos nós, jovens estudantes, bons de cama e ruins de bolso, mas era assim mesmo que as mulheres gostavam. E de vez em quando, Berta escolhia um de nós pra transar.Essa noite ia pro nosso currículo.

Lembro-me que certa vez houve uma briga entre “Tonha” e G. uma bicha que fazia teatro e inventou de ir pra zona. Como ele era branco, bem vestido e bonito, “Tonha” alfinetou:

-Viesse fazer o que, aqui?Aqui é lugar pra macho.

-E daí?Eu sou bicha, mas tenho potencia, coisa que tu num tem…

-Potencia? Pra que danado eu quero isso?Quem já viu viado com potência?Coisa mais “ridica”…

E as duas quase se agarram às tapas dentro do cabaré. Foi preciso três pra segurar cada um, pois ambos eram fortes. Desse dia em diante,ficaram inimigas e toda vez que G. chegava, “Tonha” dizia maldosamente:

-Pronto!Chegou “Potência”- e caía numa gargalhada debochada.

Eu acho que havia mesmo era um caso de amor entre os dois, pois um dia eu os vi subindo a tosca escada de madeira…

Berta vendia fiado e a gente no final do mês, pagava… E eu ia dizer religiosamente, mas ninguém paga nada religiosamente em cabaré. Digamos que a gente pagava pontualmente.

Berta foi tão importante pra geração da gente que quando nos encontrávamos na rua, ela modestamente se escondia, e a gente é que corria atrás pra cumprimentá-la. Uma lady perdida no mundo dos cabarés…

Tinha um amigo da gente, o S. que confessou angustiado pra gente que era “donzelo”, ou seja, nunca tinha transado. Arranjamos a mulher, explicamos a situação, pagamos adiantado e entregamos S. aos cuidados dela. Deixa que S. era mesmo desajeitado com mulher.E ela num teve paciência.Pegou uma revista “Capricho” e tentou ler com a luz da lua que se filtrava pelas telhas.S. num agüentou e perdeu a paciência:

-Presta atenção à (*) oda, porra!

Histórias, histórias de velha zona, eu tenho um baú cheio delas.

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