LEMBRANÇA DA  “COCÓ” QUE DONA CHIQUINHA TRATAVA SEM PENA, MAS COMPADECIDA COMO NUNCA!
a pura mãe do escriba misturada em doces lembranças!

LEMBRANÇA DA “COCÓ” QUE DONA CHIQUINHA TRATAVA SEM PENA, MAS COMPADECIDA COMO NUNCA!

A minha mãe, Dona Chiquinha, companheira por toda a vida do compadre Heráclito, meu pai, apelido que os amigos incorporaram ao seu nome  nunca chamava uma galinha de galinha ou um galo de galináceo. Uma galinha era uma “cócó”. E o galo, respeitando o galináceo, era galo mesmo.

O rosto dela brilhava e mais brilhante ainda deixava os olhos dos filhos quando anunciava “hoje vou matar uma ” có,có”!  A felicidade era tamanha que até a   “có, có” parecia sentir-se feliz em ser morta por ela!

A matança de uma  galinha por minha mãe era comovente. Ela nunca deixava a galinha “estrebuchar até morrer”. Isso nunca! Uma galinha, mesmo que não tivesse alma, costumava dizer, assim como todos os animais que não pensavam merecia uma “morte digna”.O exato momento de sua – da galinha – “morte” era uma de suas preocupações. As providências ? Afastava as “crianças” para que elas não a vissem cometendo o “crime”. Fechava a porta da cozinha e, sentada um banquinho tamanho de nada, começava o ritual.

Se a galinha ia ser à cabidela, como precisava do auxílio luxuoso de alguém para ir batendo o sangue misturado ao vinagre, o pescoço da “condenada” ainda vermelho como o sol de final de tarde, socorria-se de uma das filhas. As mulheres, dizia, tem “mais jeito pra isso”. Não para assistir ao espetáculo da morte, mas para dar o gosto especial a comida que fazia. Não dizia, mas parecia isso dizer.

Havia também o cuidado para que a “có, có” não ficasse fazendo escândalos, gritando como se morrer fosse a última coisa da vida dela, anunciado aos quatro cantos do galinheiro que estava indo embora. E aquelas que espalhavam sangue por todo chão de terra batido? Terrível! Ah, isso ela evitava! A sua “có,có” não morria assim, como se fosse um “có,có” qualquer.

A galinha sabia   que a hora da despedida estava chegando. O  triste momento de se despedir-se  das  amigas de galinheiro. Assim ,  mesmo assim como o boi ou vaca que vai para o matadouro.  Ah, esses, enfatizava, carregam nos olhos toda a tristeza do mundo nessa despedida!E o que se ver neles nesses olhos não tem nada de serenidade como muitos pensam. É tristeza mesmo, meu filho, dizia,  eles seguem para o matadouro como um inocente para o  caminho da forca!  As galinhas também são assim. Todos  os animais…

Por isso acho que era mesmo por isso que ela só matava uma galinha, imagino, depois de pedir perdão baixinho, a boca colada ao ouvido dela, pelo ato que estava prestes a praticar. Mas, passado esse momento triste, duvido que alguém ainda hoje seja capaz de preparar uma “có,có” à  cabidela tão gostosa como Dona Chiquinha preparava! Nenhuma mágoa! Nenhum arrependimento! Pena? Também nenhuma! Depois de despenada  a galinha não é mais uma galinha –  é comida! E gostosa!

Que saudade de Dona Chiquinha!

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