Mario lago

Dom Cardoso
O também conquistador Mário Lago

Pelas pesquisas que faço, ao longo de 40 anos, não tenho receio em afirmar que Mário Lago, além de advogado, ator, compositor, poeta e radialista, era, também, conquistador, boêmio e comunista declarado. No geral, é hoje, um dos maiores artistas conhecidos no Brasil e no mundo, por causa de sua versatilidade, principalmente as que ele revelou na música, sozinho ou em parceria com Ataulfo Alves.
Conta-se que Lago e Ataulfo se encontravam no Café Nice, o Point da nata artística poética e musical do Rio, nos anos de 1930 a 1950. Repentinamente entra a indomável Araci de Almeida, na época uma mulatinha de curvas, dona de maravilhosa voz. E ela conta, aos incansáveis caçadores de talentos para suas músicas e letras, a história de Amélia, uma sua empregada, que era traída pelo marido, passava necessidade, mas não o traía, nem o abandonava. Ao contrário: amava-o até demais.
Houve um estalo simultâneo nas cabeças de Lago e Ataulfo. O primeiro fez a letra e, o segundo, a música. Nasceu o samba Ai que Saudade de Amélia, de uma forma tão sutil e original, que rebentou num tremendo sucesso, na voz de Ataulfo. É bom dizer que Ataulfo, matreiro, modificou algumas quadras da letra feita por Lago e ele não gostou. A briga foi parar na direção da gravadora RCA Victor, que deu a decisão: Ataulfo gravaria a música, já que os decanos da música do dia eram Orlando Silva e Nelson Gonçalves, que recusaram a gravação-la, taxando-a de insossa.
Por outro lado, parece que a bruxa andava solta para os lados de Lago, pois este se intrigou com Noel Rosa, por causa de ciúmes: Lago teria dado em cima de uma namoradinha de Noel e a coisa ficou feia. Boêmio da noite, Lago paradoxalmente não bebia nem fumava, mas tinha, como companheiro tipo sombra, o infatigável namorador Custódio Mesquita, boêmio que bebia em excesso e tomava estimulantes variados, daí sua morte precoce aos 34 anos.
Agora firmemos apenas, a face profissional de Mário Lago. Entre suas músicas mais famosas estão Ai Que Saudades da Amélia e Atire a Primeira Pedra, ambas em parceria com Ataulfo. A marcha carnavalesca Aurora, que ficou famosa na voz de Carmem Miranda, Lago criou em parceria com Roberto Roberti. Nada Além, que teve como parceiro Custódio Mesquita, tornou-se conhecida na voz de Orlando Silva. Lago também atuou em novelas globais, como O Casarão, Pecado Capital e Brilhante. Participou de peças de teatro e filmes, como Terra em Transe, de Glauber Rocha e foi preso várias vezes como militante político
Nasceu no Rio de Janeiro em 26 de novembro de 1911. Era filho único do maestro Antonio Lago e de Maria Vicência Croccia Lago. Dedicou-se às letras logo aos 15 anos, ao publicar seu primeiro poema. Formou-se em Direito em 1933 e só exerceu a profissão por seis meses. Militante do antigo Partido Comunista Brasileiro fez amizade com Os- car Niemayer e Luís Carlos Prestes. Menina eu Sei de Uma Coisa, foi a música que marcou sua estreia como letrista, junto com Custódio Mesquita, lançada em 1935. Mora Ney gravou outra composição de Lago e o compositor Chocolate, chamada É tão Gostoso, Seu Moço, que obteve razoável sucesso.
Seus problemas de saúde iniciaram em 2002. Sofria com um enfisema pulmonar crônico, que se transformou em pneumonia bacteriana. No Intervalo das gravações, era forçado a aspirar oxigênio engarrafado. Antes, ajudou na ascensão do cantor Carlos Galhardo, por causa de um encontro casual com Roberto Martins. Este procurou Lago na saída de um teatro e pediu-lhe para ajudar um rapaz, “por- que era muito bom”. Lago deu a oportunidade para Galhardo gravar Será e Devolve, duas de suas composições, que agradaram ao público.
Quando alguém dizia que Mário não vivia seu tempo, ele respondia: “Discordo quando as pessoas falam no meu tempo… Meu tempo é hoje. Fiz um acordo com o tempo: nem ele me persegue nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra. Disse isto a um amigo em 25 de maio de 2002. Um ano e cinco dias depois morreu no Rio de Janeiro, vítima de falência múltipla de órgãos.
Sua carreira profissional, embora de muita audiência, foi marcada por forte inclinação política, em favor de sua categoria. O regime militar pós-1964, instalado no Brasil, não gostou disso. Passou um tempo no estaleiro, ao ser demitido da Rádio Nacional, em 1965. Ao voltar, consagrou-se como astro destacado no elenco da Rede Globo de Televisão. Nos seus livros de memórias contou, de forma literariamente saborosa, como era o Brasil e os brasileiros na época de sua juventude.
Em entrevista concedida ao MPB-Especial, da Tv Cultura (SP), Lago disse, entre outras coisas:
“Eu não tinha bronca com o Ataulfo. O problema é que, nas composições, só aparece o nome do cantor, embora eu fosse o letrista. Ninguém nunca chega em loja nenhuma perguntando se tem tal música e cita o nome do compositor. Então, era o caso de Ataulfo, que se apresentava ao público cantando. Ele estava sempre na onda porque cantava.
Ele diz, também, que presenciou Roberto Martins emprestar seu revólver 38 a Ataulfo Alves, para dar um ensino no vizinho, que andava paquerando a mulher dele (de Ataulfo). Ataulfo não contou história: ao chegar em casa não viu o vizinho urso na janela, mas largou tiro para todos os lados. Acabou preso e sendo alvo de chacota dos policiais e dos amigos.
Aos 13 anos, Lago fez uma quadrinha de versos, que escandalizou sua família conservadora:
Não creias que é petulante
Nem audacioso o que eu digo
Em vez de ser teu amante
Prefiro ser teu amigo

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