Mario reis

A grosseria no leito de morte de Nilton Bastos, em Buenos Aires.

Cantou tão mal nessa apresentação que o público repetia aos gritos com ironia: “Cante de novo, até aprender”.

Mário Reis conta várias grosserias de Chico Alves. Uma delas aconteceu em 1931. O pianista Nilton Bastos estava moribundo num hospital, onde padecia há meses de tuberculose, quando Chico entra abruptamente no quarto, cantando “quando eu morrer, não quero choro nem vela”. Todos os presentes ficaram chocados. No ano seguinte passaria a integrar o “cast dos cobras da canção”, formado pela Rádio Mayrink Veiga, ao lado de Carmen Miranda, Gastão Formenti, Mozar Bicalho, Patrício Teixeira e Elisa Castro. Chico já era consagrado artista e ídolo popular. É quando forma, aos 21 anos, os “Ases do Samba”, junto com o bandolinista Pery Cunha e Romualdo Peixoto.

Carlos Galhardo cantou imitando Chico Viola

A onda de sucessos continuou em 1933, quando formou Dueto com a conhecidíssima Aurora Miranda, então uma iniciante na gravação. Paralelamente, Carlos Galhardo começa a cantar imitando a voz maravilhosa de Chico. Em 1939 grava “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. O arranjo foi do pianista Radamés Gnattali. Walter Rocha narra uma gafe de Chico, em Buenos Aires. “Ele pensou que ia abafar, cantando tangos em espanhol. Foi aplaudido caloro- samente com pedidos de bis. “Depois entendeu que a galera aplaudia e cantarolava, intimando o cantor brasileiro a cantar até aprender”.
Em 1945, grava “A Canção do Expedicionário”, em homenagem aos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira – FEB. Sérgio Peixoto, ao escrever sobre Chico Alves, diz que “quando a invenção de Marconi chegou aos lares brasileiros através de diversas promoções comerciais que a barateavam, a voz de Chico Alves já era maioral, dentro do rádio carioca”. Nesta época, 1945, era o cantor mais bem pago do Brasil, o mais caro e o mais ouvido de todos. O timbre de voz de Chico provocava delírios nas morenas do bairro onde morava, numa época em que, seresteiro adolescente, não sonhava que teria tanta fama. No Hipódromo da Gávea, em 1948, mantinha um bom plantel de cavalos puro sangue.
Chico termina o casa- mento com Célia em 1949 e passa a se relacionar com Iraci Alves, uma professora bem mais jovem que ele. Passam a conviver uma união secreta, até a morte dele, aos 54 anos. David Nasser, seu parceiro profissional e intrépido repórter da revista “O Cruzeiro”, na época a mais lida na América do Sul, em diferentes reportagens biográficas publica esses epi- sódios sobre a vida do cantor.
Nasser pintava as matérias com alarde e impulsionava, assim, a venda da revista em que trabalhava. Chico e o cantor Sílvio Caldas, em 1950 ainda mantinham a grande classe dos velhos tempos, por saberem conservar suas vozes em forma.
Em 1951, novamente volta a agradar a Getúlio Vargas, ao cantar a marchinha “Retrato do Velho”, de Haroldo Lobo e Marino Pinto. A canção foi sucesso nacional e influiu na vitória eleitoral do ditador que, dizem, não gostou de ser chamado de velho. Chico já era dono de imóveis, uma loja em Miguel Pereira e de cavalos de corrida puro sangue. Mas, um ano antes, Ceci, sua primeira mulher, que desaparecera de cena há três décadas, volta a importuná-lo. Desta vez o acusa de ser pai de seus dois filhos, o menino Christiano e a menina Teresa.
Apesar do pouco tempo que passou casada com Chico, Ceci alegava que as crianças foram o fruto de “encontros furtivos” que tivera com o cantor, durante o período da “separação”. Como prova contrária, Chico mostrou que só passara nove dias casado com ela: de 20 de maio a 2 de junho de 1920. E, ao impetrar ação de negativa de paternidade, fez juntar aos autos duas cartas deixadas para ele pela ex-mulher, sendo uma delas dirigidas à família do cantor.
Na audiência de 20 de novembro de 1920, o juiz Paulo Alonso ouviu as testemunhas Mário Reis e David Nasser, apresentadas pelo réu. Nasser e Reis confirmaram a impossibilidade de Chico ser o pai dos filhos de Ceci. Em nova audiência marcada para o dia 26 do mesmo mês, o juiz concedeu ganho de causa a Chico. Derrotada, Ceci continuou a perturbar, agora após a morte do cantor, reclamando participação nos bens por ele deixados. A morte o apanhou de surpresa, numa viagem de automóvel entre Pindamonhangaba e Taubaté.
Chico dirigia seu Buick pela rodovia Presidente Dutra, ao lado de Haroldo Alves. No atual Km 102,5, numa distância de 500m após a ponte sobre o Rio Uma, na divisa entre Taubaté e Pindamonhangaba, o caminhão dirigido por João Valter Sebastiani chocou-se de frente com o Buick. Chico foi literalmente degolado, enquanto Haroldo acabou lançado fora do veículo. Sorte. O carro se incendiou e o corpo de Chico foi carbonizado. Na hora do acidente, às 17h.23 de 27 de setembro de 1952, Chico e Haroldo estavam conversando sobre o desempenho do América Futebol Clube, do Rio. Haroldo sobreviveu e contou tudo posteriormente.
Testemunhas declararam, na polícia, que o acidente fora causado por um Mercury dirigido pelo dentista Felipe Jorge Abunahman que, ao sair de uma estrada secundária, não observou um desvio provocado por obras locais e entrou direto na pista. Com esta manobra o caminhão de Sebastiani desviou-se para a esquerda e o automóvel de Chico para a direita, ambos colidindo do lado do motorista, no acostamento da pista norte. (Esta reportagem foi escrita com base nas informações do musicólogo e advoga- do José Alves Cardoso, o Dom Cardoso, que colocou os dados de seu acervo à disposição da reportagem de A União).
Hilton Gouvêa.

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