MEMÓRIAS: Dona Chiquinha inventava palavras!

MEMÓRIAS: Dona Chiquinha inventava palavras!

DONA CHIQUINHADona Chiquinha, a minha mãe, passou por aqui usando palavras que eu nunca duvidei que fossem suas, e  que existiam apenas porque saíam de sua cabeça inventora de sonhos e de histórias que sabia nos contar como nenhuma outra pessoa que não fosse mãe saberia.

Se o bom Aurélio, esse mesmo que duvido conhecer mais palavras do que ela era capaz de inventar, tivesse conhecido a minha mãe, o seu Dicionário estaria mais rico com as palavras inventadas por elas.  E se pela vez dele, inventou algumas, essas não foram mais bonitas e necessárias que as dela. Tem mais: se nós pobres dessa língua tão rica, dependentes da palavra para se comunicar, conhecêssemos todas as palavras pela minha mãe inventadas, seríamos hoje melhor entendidos no que pretendíamos dizer.

A minha mãe gostava muito da palavra “ariado”. “Ah, que menino mais ariado!”, costumava dizer.  Há pouco ouvindo essa palavra da minha mãe da boca de um paraibano arretado, nascido na cidade de Conceição de Piancó, terra da “cantriz” Elba Ramalho, não senti nenhum “estranhamento” nos ouvintes presentes. Todos paraibanos. Assim, quando a palavra foi proferida, todos entenderam:

- O menino saiu ariado (“desorientado”, assim estava o menino) do roçado”.  

Outra vez, lembro-me bem, ouvi a minha mãe falar em “ariar” o prato. Na verdade a minha mãe queria dizer “arear”, isto é,  esfregar da panela com areia para deixá-la brilhante como um sol em estado de graça e sorrindo para o mundo. “Arear” a minha mãe não sabia. Mas o verbo era usado na prática. Um verbo transitivo que significa o ato de “cobrir de areia” e outros sentidos.

 Mas não existe um sentido mais bonito e real que esse dado pela minha mãe.  Aquele tem como objetivo o de  deixar as panelas brilhando como esse Sol que acabei de lembrar e vocês conhecem muito bem. Dona Chiquinha não dizia “arear”. Nunca!  Tanto “ariado” quanto o “areado” eram pronunciados da mesma forma. Não existia diferença entre o “e” e o “i”.  Nenhuma diferença. Tudo a mesma pronúncia, mas com  sentidos diferentes.  

Além desse “areiado ou areado”, próprio da minha mãe, tinha outra palavra, “biongo”, que o nosso dicionário não tem, mas que poderia muito bem substituir o “biombo”, esse existente e dicionarizado, significando a mesma coisa que o “biongo” de dela. Agora só uma cosia: duvido que o “biombo” do Aurélio tenha nascido primeiro que esse “biongo” dela.

 E assim de palavra em palavra a minha mãe inventava um língua somente dela. Ou melhor: uma língua que somente as mães são capazes de criar e os filhos, sem qualquer esforço, entender o que essa língua diz.

 Mas cá com os meus botões sem carne e mais osso, nem dessas belas palavras criadas as mães precisam usar para que os filhos entendam o que dizem.  Mães e filhos se comunicam mesmo é através do silêncio, essa linguagem universal.  E nós, os filhos de Dona Chiquinha, a entendáamos muitos bem.

 Sinto saudades daquela língua que somente a minha mãe falava.

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