Morreu a pintora Maria Beatriz

Morreu a pintora Maria Beatriz

A pintora Maria Beatriz, a artista que fez da arte processo de emancipação, morreu aos 80 anos, no sábado, na cidade de Amesterdão, na Holanda, país onde vivia desde 1970, disse à Lusa fonte da Galeria Ratton

 

“Todo o meu trabalho lida com a emancipação, especificamente com a nossa luta pela libertação”, escreveu Maria Beatriz, no ‘site’ de apresentação das suas obras e do seu percurso.

 O país, porém, dava-lhe “falta de ar”, como disse em 2017, numa entrevista à historiadora Emília Ferreira, atual diretora do Museu Nacional de Arte Contemporânea (Museu do Chiado), para a unidade de investigação “Faces de Eva – Estudos sobre a Mulher”, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.maria rosa

“Não havia qualquer possibilidade para os jovens escolherem a sua vida”, recordou Maria Beatriz. “Os rapazes viram-se a ter de seguir o serviço militar e a partir para a guerra. Muitos desertaram e fugiram sem nada para o estrangeiro. Muitas famílias não apoiaram tal decisão. E a rutura foi enorme. As raparigas viram-se metidas num espartilho de proibições e preconceitos — para uma moça como eu era, não conforme, rebelde e desejosa de poder escolher a direção a dar à minha vida, a opção foi partir. Encontrei em Londres independência económica e liberdade de ação“, acrescentou.

Aí se fixou, em 1961-63, seguindo-se Paris, em 1965, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, até ao final da década, período durante o qual trabalhou com o pintor e impressor britânico Stanley William Hayter, no Atelier 17 (1966-68), como destaca a biografia da Galeria Ratton. A proximidade à Cinemateca Francesa e ao ateliê do pintor português Júlio Pomar foram sublinhados por Maria Beatriz, a par do Maio de 1968, que viveu.

À Holanda chegou definitivamente em 1970, onde recebeu o Prémio Estímulo, da Escola de Belas Artes, de Roterdão, na qual se diplomou em Pintura e Artes Gráficas. Mais tarde, reforçou a formação em Gravura, Serigrafia, Desenho e Pintura, na Academia Livre de Haia (1974-87 e 1988-1990).

Inicialmente, trabalhou na Galeria Printshop, em Amesterdão, como impressora do britânico David Hockney e do norte-americano Jim Dine, expoentes da arte contemporânea e da ‘pop art’.

Em 1974, com um subsídio do ministério holandês da Cultura, viajou para o México. A partir de 1978, e nos 10 anos que se seguiram, Maria Beatriz teve continuamente o apoio do Estado holandês para as Belas Artes.

A biografia da artista, no ‘site’ da Fundação Calouste Gulbenkian, destaca a ligação precoce de Maria Beatriz à arte, “por volta dos seus 12 anos, como forma de escape de uma relação difícil que mantinha com o pai”.

A sua fuga e resistência “foram os livros, a poesia e alguma música”, recorda a Gulbenkian, citando a artista: “Nessa idade [12 anos] a minha ligação à arte começou a ser muito positiva. Via a arte como uma coisa que podia dar apoio e, digamos, mudar a vida de uma pessoa. Portanto, muito nova, foi a minha escolha”.

Maria Beatriz expôs regularmente desde 1965, sobretudo na Holanda e em Portugal, séries de desenhos, trabalhos de pintura e em madeira, objetos, instalações e, mais tardiamente, fotografia.

Na página dedicada à artista, a Gulbenkian mostra quadros da série “Medo” (“O Espelho”, “A Missa”, “Dedo na Ferida”), bem como “Amor Louco”, a série fotográfica “Vita Brevis“, o “Auto-Retrato de Costas Largas”, “O Velho Tango” ou “Jogo do Galo com os três reis magos”.

Duas grandes características do seu trabalho foram, como indicou, o “envolvimento social”, por um lado, e, por outro, a técnica de colagem. “Adoro cortar. Desde pequenos desenhos feitos de pequenos pedaços de papel, a telas grandes ou figuras recortadas em madeira compensada. É a abundância de cortes que impressiona. Mesmo quando em 1999 comecei a pintar diretamente sobre tela, continuei cortando! Todos os meus estudos de formulário são recortes de papel”, escreveu.

O trabalho de Maria Beatriz foi objeto de duas exposições antológicas no Centro de Arte Contemporânea Casa da Cerca, em Almada, em 1998 e em 2016, esta última, “Trabalho de Casa 1960-2013″, com curadoria da Galeria Ratton.

Em 2002 expôs fotografias e objetos da série “Vita Brevis” no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.

Em Portugal, a Galeria Ratton, em Lisboa, dedicou-lhe três exposições individuais de desenho, pintura e azulejo: “Oisive jeunesse, à tout asservie…”, em 2009; “Alguém disse”, em 2012, e, em 2016, a par da retrospetiva na Casa da Cerca, inaugurou a mostra “Calendário”, com catálogo com textos do curador e historiador de arte João Pinharanda e do escritor Nuno Júdice.

Em 2017, Maria Beatriz fez parte da iniciativa Lusoscopie, em Paris, promovida pela Embaixada de Portugal e pelo Camões Instituto.

Maria Beatriz está representada em coleções como as do Museu de Arte Moderna de Arnhem, do Haags Gemeente Museum, em Haia, do Nederlandse Bouwfonds, em Hoevelakenas, e do Museu Stedelijk, de Gouda, na Holanda, e, em Portugal, na Caixa Geral de Depósitos, na Fundação Calouste Gulbenkian, na Fundação EDP e no Centro de Arte Contemporânea Casa da Cerca, Almada.

No seu ‘site’, no termo da apresentação do seu próprio trabalho, Maria Beatriz citou Almada Negreiros: “Só o mistério chega inteiro ao fim”.

“Uma pintora única, uma mulher fascinante, que o país e o mundo têm obrigação de conhecer”, escreveu hoje a Galeria Ratton na sua página no Facebook, em homenagem a Maria Beatriz.

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