No dia dois de fevereiro Maria não brincou na festa de Iemanjá…

No dia dois de fevereiro Maria não brincou na festa de Iemanjá…

“Maria era uma boa moça
Pra turma lá do Gantois”  – Vinícius e Toquinho.

Faz tempo. Muito. A Rua Senhor dos Passos no meu bairro Jaguaribe ainda era descalça e combinava com os nossos pés. A brincadeira era de rodar pião e barra-bandeira.  Os meninos que hoje não sabem o que é um pião, não tem a mínima ideia da nossa alegria em pega-lo na unha.  Mas não preciso ocupar espaço para dizer como, o Google que é o Freud dos nossos tempos, esse que tudo explica, está aí para isso mesmo.

 Maria costumava dançar xangô (dizia-se assim: “dançar xangô”) às escondidas, coisa de “gente que não prestava”. Diziam.   Xangô era associado a tudo que não prestava. A pessoa que dançava xangô era desqualificada.

Era tudo que as crianças ouviam numa época em que o único “xangô” existente no bairro de Jaguaribe era o de Massau. Assim mesmo. Ouvia-se “Massau” Nada de Marçal. Somente mais tarde, crescidinho, soube que esse “Massau” aí vinha de Marcelina, o nome de batismo daquela bela e guerreira mulher iemanjá

Massau, pela vez dela, nunca soube que o seu orixá de devoção, Iemanjá, significava mãe cujos filhos são como peixe”. Pensando bem, lembrando a bela Massau, não acho que ela se parecia com nenhum peixe conhecido.

Lembro-me bem que seu Xangô – nunca dizíamos “terreiro” –  ficava no final da Rua Senhor dos Passos, quase com a esquina da Rua 12 Outubro, essa em que abri os olhos para o mundo pela primeira vez.

Nasci em casa, número 950. Esse continua sendo.  Não o trocaram como assim fizeram com os belos nomes das ruas do meu bairro Jaguaribe. Afinal, quem de bom senso trocaria “Rua da Paz” por um nome próprio e desconhecido por muitos?

Ah, Maria dançava xangô todo fim de semana! Não tinha essa de esperar o dia 2 de fevereiro. Nunca. E como ela achava bonita a festa baiana em homenagem a “rainha do mar”! Mas dançar somente nesse dia? Não aguentava: era todo fim de semana.

Assim como todos iam ao Cine Santo Antonio, o mais querido e frequentado do bairro, nos fins de semana, ela que não gostava de cinema, saía de casa de mansinho, quase às escondidas, para dançar lá para as bandas dos bairros de Oitizeiro e Cruz das armas.

 iemanjá cinco boaNão me lembro de verdade se Iemanjá era o seu orixá preferido. Mas dançava! Rodava tanto que parecia ser esse seu rodar indispensável para que rodasse o mundo! Se incorporava algum santo? Acho que sim.

Era assim que a gente ouvia nos tempos do xangô de Massau: incorporar.  Não sabia que no Candomblé apenas os Orixás podiam incorporar nas pessoas. Na Umbanda? Não! Qualquer entidade pode fazer a incorporação. Aprendi também.

Mas, como eu falava, Maria rodava como um pião daqueles bonitos feitos ali próximo a Colônia Juliano Moreira, por seu Coelho. Até que um dia, ninguém nunca soube o porquê, Maria achou que não encontrava o que procurava numa “roda de xangô”, e pendurou as saias e os lenços de cabeça. Não sei como foi, só sei que foi assim.

Iemanjá passou a ser então apenas uma fotografia na parede da memória. Na de casa?  Nunca! Maria tinha medo de que a imagem de Dandalunda, Inaé, Ísis, Janaína, Marabô, Maria, Mucunã, Princesa de Aiocá, Princesa do Mar, Rainha do Mar, Sereia do Mar ou outro nome que dessem a Iemanjá assim exposta, denunciasse sua “desqualificada vida” de xangozeira.

Por onde andará Maria?

iemanjá rico

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