NOEL ROSA E SUA FAVORITA MARÍLIA BATISTA (Dom Cardoso)

DOM CARDOSO

noel rosa marila

    Onde quer que fosse Marília Baptista, a princesinha do samba, repetia uma frase de Confúcio, o sábio e filósofo chinês: “Se alguém deseja saber se um reino é bem governado ou não e se sua moral é boa ou má, examine a qualidade de sua música e, então, obterá a resposta”.

A respeito desta moça, que se tornou a cantora favorita de Noel, Carlos Didier e João Máximo têm algo a contar, no livro que fizeram juntos, intitulado “Noel Rosa: Uma Biografia”. Segundo eles, Marília, uma fina moça de sangue azul, da sociedade carioca, conheceu o incorrigível boêmio Noel, numa fase de vida em que ele já era considerado o gênio da MPB. Era uma ninfeta magra, miúda, de cabelos castanhos claros, olhos meio orientais ligeiramente rasgados, e que adotava gestos discretos, quando falava com alguém.

Ela aguardava a vez de subir no palco quando, ao procurar seu violão, notou que o instrumento estava nas mãos de Noel, que acabava de tomar uma cerveja e, ao que tudo indicava, intencionava experimentar o instrumento. Marília dirigiu-se apressada e apreensiva para junto daquele rapaz magro que não conhecia, e que, agora, sem gaguejar, falava com ela normalmente. Explicando: Noel tinha se apresentado cantando o samba –ainda desconhecido – “Gago Apaixonado” e, é claro, gaguejava na melodia porque a letra assim o exigia. Pessoalmente, sua voz soou normal.

De corpo presente e olho no olho, aquele moço que pegara, inadvertidamente, o violão de Marília, ressurgia como um enigma, diante dos olhos dela. Mesmo no samba do gago apaixonado, ela notou que ele parecia imprimir, a cada verso e palavra, uma beleza especial ao que cantava. Foi o que fez Marília mudar de ideia, quando a ele se dirigiu, pois pretendia ser grosseira, mas não o foi. Ao contrário, permaneceu alí, dócil, ao lado de Noel, ouvindo-o cantar se acompanhando ao violão que o pai lhe dera como presente.

NASCE UMA GRANDE AMIZADE  PARA A MPB

Quando Noel terminou de cantar aquele samba, cantado ao compasso de seu violão, Marília perguntou-lhe o nome da canção e ele respondeu: “Verdade Duvidosa”. A beldade ficou maravilhada, com os olhos lânguidos e desfez-se em elogios, dirigidos aquele rapaz do queixo oblíquo, que acabara de conhecer. Nascia alí uma amizade, que entraria com o pé direito na História da MPB e que, mais tarde, responderia a uma pergunta até então sem resposta: “Marília Baptista foi mesmo a preferida de Noel?” Respondo: Sim, disparadíssima, foi a melhor cantora das composições que Noel reservou para ela gravar.

Aquele histórico encontro Marília-Noel aconteceu em 1932.  Marília enturmou-se com o compositor e sua plêiade de amigos influentes e, no mesmo ano, gravou “Pedi, Implorei, me larga”, de sua autoria e do irmão Henrique, com as bênçãos de Noel. Em seguida Almirante a chama para participar da Oitavo Brodway, ao lado de nomes famosos como Sílvio Caldas, Jorge Fernandes e Rogério Guimarães, o que abria mais um leque de oportunidades para Marília. Futuramente, ela participaria de programas de auditório, liderada pelo pernambucano Ademar Casé, que a contrata com um cachê mensal de 45 mil réis, uma quantia respeitável para a época.

Ao lado de Noel, foi a consagração. Mestra na improvisação, ela se ajusta como uma luva, no programa “De Babado Sim”, onde cada cantor improvisava um verso, intercalando parte da canção com ela e Noel. Este momento da intercalação de vozes de famosos com Noel, era esperado ansiosamente pela plateia. Daí lamentarmos que versos geniais desse quilate, tenham se perdido com o tempo. Marilia se manteve profissionalmente fiel a Noel, até o compositor morrer, em 1937. Participou das últimas gravações do boêmio (“Provei”, de Noel e Vadico:  e “Você Vai se Quiser”, de Noel)

BAÚ COM AS RECORDAÇÕES DE NOEL

Marília ainda guardou vários versos, cartas e memórias de Noel. Ela morreu aos 72 anos no Rio de Janeiro, em 9 de julho de 1990. Nasceu na mesma cidade, em 13 de abril de 1918. No samba “Balão Apagado”, ela conquistou um título muito cobiçado: foi a única mulher, musicalmente parceira de Noel.  A cantora, que atuou em grande parte de sua carreira na Rádio Nacional, casou-se na década de 1940. E só voltou a gravar nos anos de 1950. Em 1963 fez um álbum duplo e o intitulou “História Musical de Noel Rosa”. Quem quiser pesquisar música, esta obra serve de grande referência.

Em 1940, ainda presa à memória de Noel, ela gravou o samba, que se tornou um clássico: “Silêncio de um Minuto”. Com timbre de voz caracteristicamente grave (semelhante ao de Alcione, o que era novidade numa cantora da época), dedicou-se, sempre, a divulgar a obra de Noel e as músicas de sua autoria, com seu irmão Henrique Baptista. Marília era de família carioca de tradição, pois se destacava como neta do Barão Luís Monteiro de Barros, de grande influência no Brasil Império. Noel, com suas melódicas composições, conquistou a admiração de uma moça do sangue azul, que nunca deixou de admirá-lo.

Amigos mais chegados, talvez com ciúmes profissionais, criticava, Noel por ele destinar tanta atenção a Marília. Estaria apaixonado por ela? Houve um caso de amoe entre eles? Parece que eles souberam separar as coisas: nada de envolver interesses profissionais com sentimentais. Também, ao que tudo indica, um não era o tipo ideal para outro. Se rolou algo de sentimental entre Marília e Noel, a história não gravou. Arriscar uma opinião é, simplesmente, opinar de forma aleatória. Noel era chegado às paixões proibidas, esdrúxulas e exóticas. Marília, só tinha de exótico sua admiração por Noel.

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