A gentileza do Gonzaguinha com um profeta que pouco de Gentileza tinha…

Vou seguindo de quarentena. Quaretenando. Tudo vendo e outras  revendo.Assim, vou logo confessando que gosto e muito dessa música de Gonzaguinha. Cantada por ele ou não. Mas, por ele, em especial. Uma letra somente ternura. Numa gravação em Gonzaguinha-Claudio-Duarte_thumb27que o Gonzaguinha estava ternura.  E “cantando “melhor ainda.

 Sentiram as aspas. Isso porque, na verdade, Gonzaguinha nunca cantou.   Um dia, em nosso Teatro Santa Roza, cara-a-cara com este MB, era só sinceridade. Assim como sempre foi: não cantava. A mensagem era o importante para ele.  Nunca cantou.  Embora, como nenhum outro, soubesse passar muito bem a mensagem que pretendia dar. Era justamente isso ele fazia e queria e sabia fazer: dar o seu recado.

Essa sua composição –  Gentileza –  sempre me tocou. Tem mais: para a minha surpresa, confesso que nunca a ouvi via rádio.  Pausa.  Esses “ouvi via” foi de propósito. Cacófato. Sei. Nunca ouvi via AM nem FM. Ela, Gentileza, não fora feita para tocar no rádio. Aquela do Gilberto Gil, sim. Fora feita para isso e, mesmo assim sendo feita, tocou pouco. Era para tocar no rádio. Não foi.

A história de Jose Datrino –  nome de batismo do Gentileza – é bastante conhecida. Foi, sem dúvidas, uma figura que entrou para o imaginário popular como um “bom” profeta. Por outro lado, porém, esse pouco conhecido, e que no imaginário popular não entrou, contam que a “Gentileza”, o bom profeta, o gentil profete, nada de bom e gentileza tinha.

 Dizem por aí, pelo menos pelo que ouvi falar e li para falar/escrever aqui, num artigo de autoria da professora Luiza Petersen e do jornalista e escritor Marcelo Câmara, por exemplo, que o Gentileza, apesar de fazer da palavra “gentileza” o seu mantra, era

- “Agressivo, moralista e desbocado […] Vociferava, ofendia e ameaçava espancar transeuntes ao ponto de às vezes ser necessário chamar a polícia para acalmá-lo”.

Não conheci o Gentileza. E menos conheci ainda o José Datrino. A música do Gonzaguinha, porém e ai porém, me toca e muito. Toco-a agora. Toca-me. gentileza 

Outra: Gonzaguinha estava mal informado. A família de Gentileza não morreu na tragédia – ele não cita, mas se trata dela –   do Gran Circus Norte-Americano, em 17 de dezembro de 1961. Mas pouco importa. Não me importa.

Gonzaguinha morreu aos 45 anos, em 29 de abril de 1991, ao regressar de uma apresentação no Paraná, vítima de acidente automobilístico em uma rodovia no Sudoeste daquele Estado.

Fim de papo. Escutem, façam a Gentileza. Ele agradeceria. Melhor: eles agradeceriam. Especialmente o Gonzaguinha. Gentileza? Nem tanto – era mal-educado.

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