O MEU PAI E A QUEDA

O MEU PAI E A QUEDA

Espalhava-me ainda  pelos corredores e salas de aula da UFPB. Como esquecer? Nunca. A memória dessa vez não me falha. Era noite. Sete horas.  A sala de aula ficava no CCHLA, Centro de Ciências Humanas, Letras e Arte.  A sigla era apelidada pelos estudantes de áreas outras de “Chula”. Medicina e Engenharia. Eles consideravam as suas nobres. Nunca achei. Filosofia e Direito. Nessas a nobreza existe mais.

Naquela época, assim como hoje ainda, ouvia mais o que professor dizia do que mesmo escrevia. Sempre. Os meus ouvidos pescam primeiro. O mar dos olhos é importante. Nenhuma dúvida. Mas são os ouvidos que viram anzóis no logo primeiro registro sonoro.

 Pela janela da sala de aula alguém me chamou. Estranhei. Não era aluno. Nem professor. Uma mulher.  Ela queria falar comigo. Apontou o seu dedo em minha direção. Pois não! É Humberto? Sempre. Pois é. Venho avisar que  seu pai levou – não disse “sofreu” – uma queda…

Se deixei as reticências no final do paragrafo, foi porque assim ela me deixou. Reticente. Não entendi. O meu pai “levou” uma queda?! Não imaginei, assim de repente ou mais que de repente, de onde o meu caíra. Tem mais: e se caíra mesmo. 

Nada de sexto nem primeiro sentido. Curiosidade. Apenas. Os anzóis da interrogação ficaram visíveis nas meninas dos meus olhos. Por que essa preocupação em   chegar ali para me deixar somente reticências? O meu pai levou uma queda…

Fiquei reticente. Mas não demorou muito para que essas, as reticências, virassem um ponto final. Aos quase 80 anos de estrada, o meu pai ainda mostrava disposição para caminhar mais uns vinte. No mínimo. Forte como um baobá, não seria um ventinho de nada que iria lhe derrubar.

O meu pai cair?! Ora, durante toda a nossa caminhada, sempre pai e amigo e eu amigo e filho, nunca vira, porém, nunca! O seu movimento de corpo era apena um drible na queda; um passo de samba; um pulo discreto no salão de baile do Veteranos, do meu bairro Jaguaribe.   

Se os seus pés nunca escreveram a sua história nos bailes de carnaval do meu bairro Jaguaribe, nosso, tudo bem, não precisava. Ele nunca precisou. Pois, clarinete que  o acompanhava como o melhor dos amigos, escreveria tudo em sonoras notas musicais.

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