o profissional de um livro só e os sonhadores longe do livro do mal

o profissional de um livro só e os sonhadores longe do livro do mal

O filme é do ano de 2003. Fazia um bom tempo que não me lembrava dele. Um bom filme. Mas agora ele voltou à tela da memória.  Tudo porque acabei de ouvir de um colega que estranhou o fato de este MB não abrir mão de um livro – aberto – em todo canto que vai ou estar. Não é mania. É habito. Assim como muitos que carregam o seu vício no bolso, carrego o meu dentro do “alazão cor de sangue”. Sou um sujeito que tem muitas histórias para contar, escrever. Disse. Sou capaz de “beber” e viver e contar histórias alheias.livro um

Nada lhe disse. Ele não é leitor de livros. Não gosta. Desconfio.  Os livros que lhe interessam são aqueles escritos para ele. Trocando em miúdos: para o campo profissional em que se formou. Mas nada de não “gostar de ler” pelo fato de ser um técnico.  Nunca gostou. João Cabral de Melo neto era engenheiro e Guimarães Rosa médico. Tempo não tive para lhe dizer. Diria mais:  Anton Tchekhov, Moacyr Scliar, Jean Paul Sartre eram médicos também.  Bons médicos e ótimos escritores. Perderia o meu tempo? Certamente.

O meu colega é engenheiro. Apenas. Não é poeta nem escritor. Pausa. Nem gosta de ler. Poemas e romances?  Nada têm a ver com a sua profissão.  Tem mais: o intelectual não passa de um “contador de histórias”. Forrest Gump? Nada disso. Nunca ouviu falar.  Não gosta de ler, e fim de papo. Papo? Não tem.  Essa é a verdade.

Não diria que “detesta” esse hábito meu. Ler. Um castigo para ele.  Poderá dizer. Eu não.  Só não me deu tempo para lhe dizer que tenho muito medo do sujeito que leu apenas um livro. Tempo para lembrar o Santo Tomás de Aquino. “Tenho medo do homem de um só livro”.  Mas não sei se ele entenderia. Sou um técnico, apenas. Poderia responder. Pausa. Também sou. Mas, resolvi ficar calado. Fechado. Assim como nunca vou deixar um livro.livro tres

E os “Sonhadores” (The Dreamers), o filme que falei no comecinho destas mal-traçadas, do ano de 2003, dirigido pelo bom Bernardo Bertolucci?! Pois é. Termino com ele, lembrando esse colega de um livro (desconfio) só. A cena é inesquecível. Um jovem, cheio de vigor patriótico, mostra ao colega o “livro vermelho”, aquele famoso do Mao (nada de “Mal”), com milhares de militantes acenando o referido e, em seguida, faz a famigerada pergunta:

– Não achas maravilhoso?! Milhares com um livro na mão!

– Não, pois é o mesmo livro!

Responde o amigo.

Fecha o livro. Cai o pano.

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